{"id":15734,"date":"2024-09-14T12:08:19","date_gmt":"2024-09-14T15:08:19","guid":{"rendered":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=15734"},"modified":"2024-09-14T12:08:22","modified_gmt":"2024-09-14T15:08:22","slug":"artigo-de-thiago-de-moraes-questiona-a-questao-etica-dos-profissionais-de-saude-na-pratica-da-automutilacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=15734","title":{"rendered":"Artigo de Thiago de Moraes questiona a quest\u00e3o \u00e9tica dos profissionais de sa\u00fade na pr\u00e1tica da automutila\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Escrito Por Thiago de Moraes<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Artigo de Opini\u00e3o : A Automutila\u00e7\u00e3o a Pedido do Paciente \u2013 Uma Quest\u00e3o de \u00c9tica e Humanidade<\/em><\/strong><br><br>No cen\u00e1rio atual, onde a busca pela autonomia individual e pela liberdade de escolha tem ganhado destaque, uma quest\u00e3o delicada e preocupante tem emergido no campo da sa\u00fade: a pr\u00e1tica da automutila\u00e7\u00e3o a pedido do paciente, sob supervis\u00e3o m\u00e9dica. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas controversa, mas levanta s\u00e9rios questionamentos sobre \u00e9tica, humanidade e os limites da pr\u00e1tica m\u00e9dica.\u00a0<br><br>A automutila\u00e7\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 um ato de causar danos ao pr\u00f3prio corpo. Historicamente, sempre foi vista como um sinal de sofrimento psicol\u00f3gico profundo, frequentemente associado a transtornos mentais como depress\u00e3o, ansiedade e transtornos de personalidade. A ideia de que um paciente, em pleno uso de suas faculdades mentais, possa solicitar a um profissional de sa\u00fade que o assista em um ato de automutila\u00e7\u00e3o \u00e9, para muitos, n\u00e3o s\u00f3 perturbadora como moralmente indefens\u00e1vel.\u00a0<br><br>Primeiro, \u00e9 crucial abordar o princ\u00edpio da n\u00e3o malefic\u00eancia, um dos pilares da \u00e9tica m\u00e9dica. Este princ\u00edpio estabelece que os m\u00e9dicos devem evitar causar danos aos seus pacientes. Como justificar, ent\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o em um ato que, por sua natureza, inflige dor e les\u00f5es f\u00edsicas? Ainda que o paciente seja o solicitante, a responsabilidade \u00e9tica do m\u00e9dico n\u00e3o pode ser simplesmente ignorada. H\u00e1 uma linha t\u00eanue entre respeitar a autonomia do paciente e negligenciar o dever de proteger a integridade f\u00edsica e mental desse indiv\u00edduo.\u00a0<br><br>Al\u00e9m disso, a sociedade deve se perguntar: estamos caminhando para um ponto em que a autonomia individual justifica qualquer a\u00e7\u00e3o, mesmo que seja autodestrutiva? O conceito de liberdade, t\u00e3o valorizado em sociedades democr\u00e1ticas, n\u00e3o pode ser deturpado para validar pr\u00e1ticas que, em \u00faltima an\u00e1lise, destroem a pr\u00f3pria ess\u00eancia do ser humano.\u00a0<br><br>\u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m refletir sobre a humanidade que deve nortear a pr\u00e1tica m\u00e9dica. A fun\u00e7\u00e3o primordial do m\u00e9dico \u00e9 curar, aliviar o sofrimento e, quando poss\u00edvel, restaurar a sa\u00fade. Atender ao pedido de automutila\u00e7\u00e3o subverte esse papel, transformando o curador em c\u00famplice de um ato destrutivo. Isso \u00e9 especialmente preocupante em um momento em que a sa\u00fade mental \u00e9 uma quest\u00e3o central nas discuss\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas. Ao inv\u00e9s de facilitar a automutila\u00e7\u00e3o, o foco deveria estar na cria\u00e7\u00e3o de mecanismos de apoio psicol\u00f3gico e social para prevenir tais desejos e tratar suas causas subjacentes.\u00a0<br><br>Por fim, \u00e9 imprescind\u00edvel destacar as implica\u00e7\u00f5es sociais desse tipo de pr\u00e1tica. Se permitirmos que a automutila\u00e7\u00e3o assistida se torne uma norma aceit\u00e1vel, que mensagem estaremos transmitindo? Que a dor e o sofrimento podem ser solucionados com a destrui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo? Que, diante do desespero, a \u00fanica resposta \u00e9 ceder ao impulso autodestrutivo? Isso seria um fracasso n\u00e3o s\u00f3 da medicina, mas da sociedade como um todo.\u00a0<br><br>Portanto, ao considerarmos a quest\u00e3o da automutila\u00e7\u00e3o a pedido do paciente, devemos nos posicionar com clareza e firmeza. A liberdade individual \u00e9, sem d\u00favida, um valor inestim\u00e1vel, mas n\u00e3o pode ser usada como justificativa para pr\u00e1ticas que comprometem a sa\u00fade e a dignidade humana. \u00c9 preciso que a sociedade, os profissionais de sa\u00fade e os formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas rejeitem veementemente essa ideia, refor\u00e7ando o compromisso com a vida, a sa\u00fade e o bem-estar de todos os indiv\u00edduos.\u00a0<br><br>A automutila\u00e7\u00e3o nunca deve ser uma op\u00e7\u00e3o, muito menos uma pr\u00e1tica legitimada.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A Automutila\u00e7\u00e3o Supervisionada \u2013 O Caso Andressa Urach e a Banaliza\u00e7\u00e3o da Medicina&nbsp;<br><br>O recente caso de Andressa Urach, que se submeteu a um procedimento de bifurca\u00e7\u00e3o da l\u00edngua \u2013 popularmente conhecida como \u201cl\u00edngua de cobra\u201d \u2013 sob supervis\u00e3o m\u00e9dica, levanta uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que n\u00e3o podem ser ignoradas. A transforma\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de automutila\u00e7\u00e3o em procedimentos m\u00e9dicos regulados \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 um desvio perturbador da \u00e9tica, mas tamb\u00e9m uma sinaliza\u00e7\u00e3o alarmante de uma sociedade que perdeu o rumo no que tange \u00e0 sa\u00fade e ao bem-estar humano.&nbsp;<br><br>Quando falamos de automutila\u00e7\u00e3o, estamos nos referindo a atos que, tradicionalmente, sempre foram associados a quadros de sofrimento psicol\u00f3gico e emocional. A decis\u00e3o de permitir que tais atos sejam realizados sob a \u00e9gide da pr\u00e1tica m\u00e9dica \u00e9, francamente, um esc\u00e2ndalo \u00e9tico. Que papel os m\u00e9dicos est\u00e3o assumindo na sociedade quando aceitam transformar a mutila\u00e7\u00e3o em servi\u00e7o est\u00e9tico? N\u00e3o podemos ignorar a gravidade dessa quest\u00e3o, pois n\u00e3o se trata apenas de uma escolha pessoal, mas de uma pr\u00e1tica que envolve a cumplicidade de profissionais que deveriam ser guardi\u00f5es da sa\u00fade, e n\u00e3o facilitadores de desejos autodestrutivos.&nbsp;<br><br>Andressa Urach, ao longo de sua trajet\u00f3ria p\u00fablica, tornou-se um exemplo do que h\u00e1 de pior no culto \u00e0 apar\u00eancia e \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o corporal. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que ela se submete a procedimentos extremos, muitos dos quais j\u00e1 resultaram em complica\u00e7\u00f5es graves. Mas, o que mais preocupa no caso da bifurca\u00e7\u00e3o da l\u00edngua \u00e9 a legitima\u00e7\u00e3o desse tipo de mutila\u00e7\u00e3o como algo aceit\u00e1vel e at\u00e9 desej\u00e1vel, quando na verdade deveria ser lament\u00e1vel.&nbsp;<br><br>A bifurca\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, um procedimento irrevers\u00edvel que provoca altera\u00e7\u00f5es significativas na fala, alimenta\u00e7\u00e3o e, possivelmente, na sa\u00fade geral, n\u00e3o deveria, em hip\u00f3tese alguma, ser tratado como uma simples escolha est\u00e9tica. \u00c9 uma mutila\u00e7\u00e3o, pura e simples. Que um m\u00e9dico tenha sido c\u00famplice desse ato \u00e9 algo que deve ser criticado com veem\u00eancia. Onde est\u00e1 o compromisso com o princ\u00edpio da n\u00e3o malefic\u00eancia? Como justificar que um profissional da sa\u00fade, que fez um juramento de proteger e preservar a vida, participe de um procedimento que nada mais \u00e9 do que uma agress\u00e3o ao corpo?&nbsp;E agora tamb\u00e9m com a possibilidade de colocar um seio a mais em seu corpo?<br><br>A cultura da modifica\u00e7\u00e3o corporal, quando incentivada por figuras p\u00fablicas, ganha uma legitimidade perigosa. Estamos diante de uma sociedade que, ao normalizar a automutila\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sinalizando uma grave distor\u00e7\u00e3o dos valores fundamentais da medicina e da sa\u00fade p\u00fablica. Isso n\u00e3o \u00e9 liberdade de escolha; \u00e9 um sintoma de uma cultura doente, que valoriza a apar\u00eancia e a excentricidade acima da integridade f\u00edsica e mental.&nbsp;<br><br>H\u00e1 um limite claro entre o que \u00e9 considerado uma escolha est\u00e9tica e o que \u00e9, na verdade, um ato de automutila\u00e7\u00e3o. A bifurca\u00e7\u00e3o da l\u00edngua ultrapassa esse limite de forma alarmante. E n\u00e3o devemos apenas nos lamentar pelo estado em que se encontra Andressa Urach, mas tamb\u00e9m pela coniv\u00eancia de uma sociedade que permite e at\u00e9 encoraja tais pr\u00e1ticas. A medicina, que deveria ser o \u00faltimo basti\u00e3o contra o autodestrutivo, est\u00e1, neste caso, contribuindo para a banaliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.&nbsp;<br><br>A participa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos em procedimentos como esse deve ser condenada, e os limites \u00e9ticos devem ser rigorosamente defendidos. Automutila\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, e nunca deveria ser, uma pr\u00e1tica legitimada por profissionais da sa\u00fade. E casos como o de Andressa Urach deveriam servir como um alerta do caminho perigoso que estamos trilhando. Este \u00e9 um momento de reflex\u00e3o urgente, para que a medicina retome seu verdadeiro papel: o de proteger, curar e promover a vida, e n\u00e3o de ser c\u00famplice na sua degrada\u00e7\u00e3o.&nbsp;<br><br><br><\/p>\n\n\n\n<p>Artigo de Thiago de Moraes jurista, cientista pol\u00edtico, apresentador ancora, jornalista&nbsp;<br><br>MTB 0091632\/SP&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito Por Thiago de Moraes Artigo de Opini\u00e3o : A Automutila\u00e7\u00e3o a Pedido do Paciente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":15735,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"spay_email":""},"categories":[1],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/vimagazine.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/download.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15734"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=15734"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15734\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15736,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/15734\/revisions\/15736"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/15735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=15734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=15734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=15734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}