{"id":19532,"date":"2025-07-14T13:03:21","date_gmt":"2025-07-14T16:03:21","guid":{"rendered":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=19532"},"modified":"2025-07-14T13:03:22","modified_gmt":"2025-07-14T16:03:22","slug":"sociedade-medicada-a-nova-epidemia-psiquica-no-brasil-artigo-de-thiago-de-moraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=19532","title":{"rendered":"Sociedade Medicada: A Nova Epidemia Ps\u00edquica no Brasil artigo de Thiago de Moraes\u00a0 \u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>Desde a pandemia, o Brasil assiste a um crescimento impressionante no consumo de medicamentos controlados. Mais do que um reflexo de diagn\u00f3sticos em alta, esse movimento revela um colapso emocional em larga escala \u2014 silencioso, cotidiano, e socialmente aceito. Neste artigo, reunimos dados recentes e vozes de especialistas para entender o que realmente est\u00e1 adoecendo o pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2020, enquanto o mundo ainda tentava se reorganizar em meio ao caos provocado pela COVID-19, farm\u00e1cias brasileiras registraram algo que poucos esperavam: uma explos\u00e3o na procura por medicamentos tarja preta. Clonazepam, zolpidem, alprazolam. Subst\u00e2ncias que, at\u00e9 ent\u00e3o, tinham um uso controlado e restrito, passaram a fazer parte da rotina de milh\u00f5es de brasileiros que n\u00e3o conseguiam mais dormir, trabalhar ou se concentrar. Desde ent\u00e3o, a curva n\u00e3o parou de subir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) e da consultoria IQVIA mostram que, entre 2019 e 2022, o consumo desses psicotr\u00f3picos cresceu mais de 30%. O caso do clonazepam \u00e9 emblem\u00e1tico: 14 milh\u00f5es de caixas vendidas em 2019 saltaram para 21,6 milh\u00f5es em 2022 \u2014 um aumento de 54%. O zolpidem, utilizado como indutor do sono, mais do que dobrou suas vendas, registrando um crescimento de 105% no mesmo per\u00edodo. A pandemia pode ter sido o estopim, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga cl\u00ednica Ana L\u00facia Dantas, que atende em S\u00e3o Paulo, explica que o sofrimento ps\u00edquico sempre existiu, mas ganhou contornos mais vis\u00edveis \u2014 e urgentes \u2014 no p\u00f3s-pandemia. \u201cMuitas pessoas passaram a procurar ajuda n\u00e3o por estarem doentes, mas por n\u00e3o suportarem mais o tipo de vida que levavam. O rem\u00e9dio veio como uma tentativa de aguentar o dia seguinte\u201d, diz. A fala ecoa na experi\u00eancia de consult\u00f3rios Brasil afora: ansiedade, ins\u00f4nia, ataques de p\u00e2nico e esgotamento emocional se tornaram queixas corriqueiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra Leandro Telles observa que o aumento nas prescri\u00e7\u00f5es n\u00e3o significa, necessariamente, mais tratamento: \u201cEstamos lidando com um modelo de sa\u00fade mental que oferece o rem\u00e9dio como solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Ele reduz o sintoma, mas n\u00e3o d\u00e1 conta da origem.\u201d Para Telles, o problema \u00e9 que a sociedade passou a considerar normal estar exausto \u2014 e quando isso se torna insuport\u00e1vel, o recurso mais imediato \u00e9 farmacol\u00f3gico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), em relat\u00f3rio de 2022, j\u00e1 previa que transtornos mentais seriam a \u201cpr\u00f3xima pandemia\u201d. No primeiro ano da COVID-19, a preval\u00eancia de ansiedade e depress\u00e3o no mundo aumentou em 25%. No Brasil, pa\u00eds que j\u00e1 liderava os \u00edndices globais de transtornos de ansiedade, os efeitos foram ainda mais profundos. Embora faltem dados oficiais p\u00f3s-2023, pesquisadores estimam que mais de 12% da popula\u00e7\u00e3o hoje conviva com algum tipo de transtorno ps\u00edquico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A explos\u00e3o de consumo entre os jovens adultos chamou a aten\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica. A faixa et\u00e1ria de 18 a 35 anos registrou o crescimento mais agressivo no uso de medicamentos controlados. \u201cEstamos falando de uma gera\u00e7\u00e3o inteira que nunca teve tempo para elaborar suas emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma juventude que aprendeu a performar o tempo todo \u2014 e quando o corpo ou a mente travam, o sistema exige que continuem funcionando\u201d, comenta o neurocientista Paulo Esteves, da UFRJ. Para ele, o uso abusivo de psicof\u00e1rmacos nesse grupo representa uma tentativa desesperada de adapta\u00e7\u00e3o a um ritmo desumano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tentativa, no entanto, muitas vezes esbarra em um sistema p\u00fablico de sa\u00fade mental que n\u00e3o d\u00e1 conta da demanda. O Brasil conta com cerca de 6 mil psiquiatras no SUS \u2014 n\u00famero insuficiente diante da magnitude do problema. Como consequ\u00eancia, a prescri\u00e7\u00e3o de medicamentos torna-se o caminho mais r\u00e1pido, mais barato e, infelizmente, mais solit\u00e1rio. \u201cA medicaliza\u00e7\u00e3o acaba sendo uma resposta institucional \u00e0 falta de pol\u00edticas p\u00fablicas de acolhimento e escuta\u201d, afirma a professora M\u00e1rcia Oliveira, da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP. Ela chama aten\u00e7\u00e3o para o risco de se tratar o sofrimento com l\u00f3gica industrial: \u201cN\u00e3o se cura uma crise existencial com uma caixa de comprimidos.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cr\u00edtica \u00e9 refor\u00e7ada por cientistas sociais que acompanham de perto o fen\u00f4meno. O antrop\u00f3logo Renato Duarte, da PUC-RJ, analisa a populariza\u00e7\u00e3o dos psicotr\u00f3picos como parte de um processo maior de controle social. \u201cEstamos anestesiando a insatisfa\u00e7\u00e3o coletiva com subst\u00e2ncias que permitem que as pessoas continuem operando no mercado. H\u00e1 algo perverso nisso.\u201d Segundo ele, a medicaliza\u00e7\u00e3o em massa n\u00e3o representa avan\u00e7o no cuidado, mas sim o enfraquecimento das redes comunit\u00e1rias, da solidariedade e da escuta social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A psiquiatra Miriam Sachs, da Unifesp, lembra que os medicamentos controlados t\u00eam, sim, sua fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica \u2014 e em muitos casos, s\u00e3o indispens\u00e1veis. Mas ressalta: \u201cO problema come\u00e7a quando eles deixam de ser ponte e passam a ser muleta. Quando a pessoa depende do rem\u00e9dio para simplesmente existir.\u201d Sachs defende que o caminho mais sustent\u00e1vel incluipsicoterapia, fortalecimento de v\u00ednculos, reestrutura\u00e7\u00e3o da vida social e, sobretudo, tempo. \u201cTempo para elaborar, para sentir, para parar\u201d, conclui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os comprimidos engolidos e os sil\u00eancios engolidos, o Brasil se aproxima de um ponto cr\u00edtico. A anestesia coletiva pode at\u00e9 evitar o colapso imediato, mas a que custo? Cada caixa vendida carrega mais do que um n\u00famero em estat\u00edstica: carrega hist\u00f3rias de dor, de urg\u00eancia, de cansa\u00e7o e de aus\u00eancia de cuidado real.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A receita continua sendo retida nas farm\u00e1cias, mas o sofrimento j\u00e1 escapou de qualquer controle.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Thiago&nbsp;de&nbsp;Moraes* \u00e9 jornalista&nbsp;MTB&nbsp;0091632\/SP, cientista pol\u00edtico, jurista, jurista, professor, escritor, colunista Migalhas Jur\u00eddicas&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/thiagodemoraesoficial_\/\">https:\/\/www.instagram.com\/thiagodemoraesoficial_\/<\/a><\/li><li><a rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/profthiagodemoraes\/\">https:\/\/www.instagram.com\/profthiagodemoraes\/<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o professor&nbsp;Thiago&nbsp;de&nbsp;Moraes&nbsp;criou o podcast &#8220;A Pauta&#8221;, onde ele traz&nbsp;debates e entrevistas relevantes sobre temas sociais, pol\u00edticos, e entretenimento o podcast pode ser encontrado no youtube.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul><li><a rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/youtu.be\/L2jpbUVSmV0?feature=shared\">https:\/\/youtu.be\/L2jpbUVSmV0?feature=shared<\/a><\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a pandemia, o Brasil assiste a um crescimento impressionante no consumo de medicamentos controlados&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":19533,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"spay_email":""},"categories":[1],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/vimagazine.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/FB_IMG_1750205711388.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19532"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19532"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19532\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19534,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19532\/revisions\/19534"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/19533"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vimagazine.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}