{"id":22331,"date":"2026-04-08T18:06:38","date_gmt":"2026-04-08T21:06:38","guid":{"rendered":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=22331"},"modified":"2026-04-08T18:06:41","modified_gmt":"2026-04-08T21:06:41","slug":"emagrecimento-e-saude-mental-porque-canetas-emagrecedoras-dietas-e-cirurgias-sem-acompanhamento-psicologico-sao-perigosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=22331","title":{"rendered":"Emagrecimento e sa\u00fade mental: porque canetas emagrecedoras, dietas e cirurgias sem acompanhamento psicol\u00f3gico s\u00e3o perigosos."},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Dr. Marcio Renzo &#8211; Psicanalista e hipnoterapeuta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Emagrecer virou produto: tem pacote, p\u00edlula e promessa de resultado \u201cj\u00e1\u201d. Mas o que fica por baixo dessa pressa toda? Olhando pela lente da psican\u00e1lise \u2014 com Freud lembrando das primeiras rela\u00e7\u00f5es com a comida e Jung alertando para os complexos de autoimagem \u2014 d\u00e1 para ver que muito do que buscamos consertar no corpo \u00e9, na verdade, tentativa de remendar feridas emocionais. Comer, para Freud, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 saciar fome: \u00e9 hist\u00f3ria, afeto, consolo. Quem come para preencher um vazio ou se priva como forma de puni\u00e7\u00e3o est\u00e1 lidando com algo que n\u00e3o cabe s\u00f3 numa dieta. Jung acrescenta que o espelho \u00e9 cena de proje\u00e7\u00f5es; a insatisfa\u00e7\u00e3o no reflexo muitas vezes remete a sombras e complexos que a pessoa tenta \u201cconsertar\u201d com medidas, cirurgias ou rem\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura em que vivemos e as redes sociais amplificaram e aceleraram esse movimento. A beleza deixou de ser apenas ideal cultural para virar produto midi\u00e1tico: imagens produzidas, filtros que \u201ccorrigem\u201d imperfei\u00e7\u00f5es e algoritmos que repetem o mesmo padr\u00e3o at\u00e9 faz\u00ea\u2011lo parecer normal. Essa repeti\u00e7\u00e3o constante cria sensa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia e falta: se todo mundo parece ter um corpo \u201ccorreto\u201d \u2014 ainda que artificialmente \u2014 a press\u00e3o para alcan\u00e7\u00e1\u2011lo se torna quase moral. Influenciadores vendem rotinas, suplementos e procedimentos como chaves para uma vida mais feliz; o que raramente aparece nos posts s\u00e3o as frustra\u00e7\u00f5es, as reca\u00eddas e o trabalho emocional por tr\u00e1s de qualquer mudan\u00e7a duradoura. A compara\u00e7\u00e3o cont\u00ednua alimenta ansiedade e baixa autoestima, transformando o desejo leg\u00edtimo de cuidado em corrida por resultados perform\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, um elemento novo entrou com for\u00e7a nesse mercado: as chamadas \u201ccanetas emagrecedoras\u201d \u2014 medicamentos injet\u00e1veis \u00e0 base de an\u00e1logos de GLP\u20111 (como semaglutida) usados inicialmente para diabetes e, mais recentemente, amplamente divulgados para perda de peso. A popularidade desses f\u00e1rmacos foi impulsionada por relatos de perda r\u00e1pida e por influenciadores que documentaram transforma\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas; cl\u00ednicas e consult\u00f3rios passaram a oferec\u00ea\u2011los em escala crescente.<\/p>\n\n\n\n<p>O uso dessas canetas tem impactos psicol\u00f3gicos relevantes. Para algumas pessoas, a redu\u00e7\u00e3o do peso traz al\u00edvio e melhora da autoestima; por\u00e9m, quando a medica\u00e7\u00e3o \u00e9 adotada como atalho sem trabalho emocional, tende a refor\u00e7ar a ideia de que basta \u201ccorrigir\u201d o corpo para resolver problemas \u00edntimos. Isso aprofunda a dissocia\u00e7\u00e3o entre imagem e hist\u00f3ria: a pessoa que n\u00e3o enfrentou os gatilhos emocionais continua vulner\u00e1vel a reca\u00eddas, frustra\u00e7\u00f5es e \u00e0 busca por novos procedimentos. H\u00e1 ainda risco de depend\u00eancia psicol\u00f3gica \u2014 acreditar que sem a caneta n\u00e3o h\u00e1 controle \u2014 e de agravamento do transtorno dism\u00f3rfico corporal, pois a facilidade de mudar o corpo pode estimular buscas compulsivas por ajustes cont\u00ednuos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando interven\u00e7\u00f5es no corpo \u2014 cirurgias, dietas extremas ou canetas emagrecedoras \u2014 ocorrem sem acompanhamento psicol\u00f3gico, os riscos se multiplicam. Fisicamente, podem surgir infec\u00e7\u00f5es, tromboses, complica\u00e7\u00f5es anest\u00e9sicas, desequil\u00edbrios eletrol\u00edticos e desnutri\u00e7\u00e3o; a m\u00e9dio e longo prazo h\u00e1 altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas e hormonais que dificultam a manuten\u00e7\u00e3o do peso. Psicologicamente, a aus\u00eancia de tratamento deixa intactos os mecanismos que geraram o problema: compuls\u00f5es persistem, culpa e vergonha se agravam, e a pessoa pode desenvolver depend\u00eancia de procedimentos para regular a autoestima. A retirada ou redu\u00e7\u00e3o do medicamento frequentemente leva a reganho de peso e frustra\u00e7\u00e3o, alimentando um ciclo de tentativas e desespero que poderia ter sido prevenido pela escuta cl\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<p>A imprensa brasileira tem intensificado a cobertura sobre as canetas emagrecedoras nos \u00faltimos anos, apontando tanto potenciais benef\u00edcios quanto riscos e dilemas \u00e9ticos. Reportagens recentes destacaram estudos que associam semaglutida \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de risco para eventos cardiovasculares e ganho de qualidade de vida em pacientes selecionados, ao mesmo tempo em que noticiaram efeitos colaterais gastrointestinais, debates sobre indica\u00e7\u00e3o, oferta crescente em cl\u00ednicas est\u00e9ticas e procura por uso sem supervis\u00e3o m\u00e9dica. Essas coberturas sublinham a necessidade de prescri\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, acompanhamento multidisciplinar e aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o psicol\u00f3gica dos tratamentos, lembrando que efic\u00e1cia cl\u00ednica n\u00e3o elimina a necessidade de escuta e suporte (UOL VivaBem, 22\/01\/2025; VEJA, 22\/10\/2025; G1, 15\/03\/2026).<\/p>\n\n\n\n<p>Em minha pr\u00e1tica cl\u00ednica, n\u00e3o sou contra medicamentos, cirurgias ou outros recursos quando bem indicados; o que vejo com frequ\u00eancia, e que me preocupa, \u00e9 o uso isolado desses atalhos como promessa de solu\u00e7\u00e3o definitiva. Tratamentos sem aten\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria afetiva e aos gatilhos emocionais tendem a gerar al\u00edvio moment\u00e2neo, seguido de frustra\u00e7\u00e3o, reca\u00eddas e at\u00e9 novos procedimentos. Por isso, acredito que mudan\u00e7a verdadeira passa pela integra\u00e7\u00e3o: m\u00e9dico, nutricionista e psic\u00f3logo trabalhando juntos. Antes de aceitar o \u201cjeito mais r\u00e1pido\u201d, vale perguntar\u2011se: por que quero mudar e que vazio espero preencher? Se a resposta tocar algo al\u00e9m do corpo, na minha experi\u00eancia cl\u00ednica esse \u00e9 o sinal mais claro de que a ajuda psicol\u00f3gica deve caminhar junto ao tratamento f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de demonizar medica\u00e7\u00f5es ou cirurgias \u2014 quando bem indicadas e acompanhadas, podem ser ferramentas valiosas \u2014 mas de alertar contra seu uso isolado como c\u00e1psula m\u00e1gica. A transforma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica pode fazer parte de um projeto de autocuidado, desde que haja escuta, avalia\u00e7\u00e3o e acompanhamento. Sem isso, a pressa por resultados pode transformar esperan\u00e7a em frustra\u00e7\u00e3o e cuidado em risco. Enquanto redes sociais e m\u00eddia continuarem a vender milagres sem mostrar o trabalho emocional por tr\u00e1s deles, muitas hist\u00f3rias de \u201csucesso\u201d ter\u00e3o, do outro lado, relatos n\u00e3o contados de reca\u00eddas, danos e esfor\u00e7os invis\u00edveis. <a href=\"http:\/\/www.marciorenzo.com.br\" title=\"Cuidar do corpo \u00e9 tamb\u00e9m cuidar da mente\">Cuidar do corpo \u00e9 tamb\u00e9m cuidar da mente<\/a>; s\u00f3 assim a mudan\u00e7a pode ser verdadeira e duradoura.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias jornal\u00edsticas citadas: UOL VivaBem (22\/01\/2025), VEJA (22\/10\/2025), G1 (15\/03\/2026).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dr. Marcio Renzo &#8211; Psicanalista e hipnoterapeuta. 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