{"id":22585,"date":"2026-04-21T16:25:49","date_gmt":"2026-04-21T19:25:49","guid":{"rendered":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=22585"},"modified":"2026-04-21T16:25:52","modified_gmt":"2026-04-21T19:25:52","slug":"a-violencia-contra-minorias-e-seus-reflexos-na-mente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vimagazine.com.br\/?p=22585","title":{"rendered":"A viol\u00eancia contra minorias e seus reflexos na mente."},"content":{"rendered":"\n<p>Sabe aquele ditado que a gente ouve por a\u00ed: &#8220;as palavras n\u00e3o machucam&#8221;? Pois \u00e9, a psican\u00e1lise discorda e muito. A viol\u00eancia sistem\u00e1tica contra minorias deixa cicatrizes profundas na psique das pessoas, mexendo em coisas fundamentais como identidade e desenvolvimento. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 trauma pontual, n\u00e3o. \u00c9 algo que vai marcando a gente desde cedo, se infiltrando no inconsciente. Pesquisadores da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo v\u00eam investigando justamente isso \u2014 como mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual e pessoas LGBTQIAPN+ sofrem impactos s\u00e9rios na sa\u00fade mental, desde depress\u00e3o at\u00e9 comportamentos autodestrutivos.[1] \u00c9 coisa s\u00e9ria demais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando a gente aprende a desumanizar atrav\u00e9s das palavras.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui t\u00e1 o ponto: a viol\u00eancia f\u00edsica \u00e9 tipo o \u00faltimo ato de uma pe\u00e7a que come\u00e7ou bem antes. Muito antes. A psican\u00e1lise nos mostra que antes de algu\u00e9m apanhar, precisa primeiro deixar de ser gente, sabe? Precisa virar &#8220;coisa&#8221;, objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma colunista do Di\u00e1rio do Nordeste escreveu algo que \u00e9 meio assustador: &#8220;ningu\u00e9m agride, viola ou mata quem reconhece plenamente como igual.&#8221;[8] Isso quer dizer que a gente precisa primeiro rebaixar a pessoa atrav\u00e9s da linguagem. Mulheres em aplicativos de relacionamento sendo chamadas de &#8220;estupr\u00e1veis&#8221;, camisetas de certos grupos dizendo &#8220;n\u00e3o se arrependa&#8221;, adolescentes classificando colegas por &#8220;utilidade&#8221; \u2014 tudo isso \u00e9 ensaio. Treino do olhar que depois autoriza a viol\u00eancia mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Frantz Fanon, um psiquiatra que trabalhou com v\u00edtimas da coloniza\u00e7\u00e3o na Arg\u00e9lia, j\u00e1 tinha entendido isso nos anos 1950.[12] Ele mostrou que o racismo e a opress\u00e3o colonial n\u00e3o machucam s\u00f3 o corpo, machucam o inconsciente das pessoas, deixam marcas que a gente passa para o pr\u00f3ximo. A psican\u00e1lise precisava acordar para isso: o sujeito n\u00e3o \u00e9 uma \u201cilhinha\u201d isolada numa sala de consult\u00f3rio. A gente \u00e9 marcado pelo contexto, pela hist\u00f3ria, pela opress\u00e3o que a gente vive.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O estresse de ser minoria: quando ficar vivo j\u00e1 \u00e9 cansativo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tem um termo que os pesquisadores usam \u2014 &#8220;estresse de minoria.&#8221; Basicamente, \u00e9 aquele cansa\u00e7o cr\u00f4nico de estar sempre em alerta, sempre na defensiva.[1] Pessoas LGBTQIAPN+ que n\u00e3o se assumiram publicamente vivem nisso o tempo todo. \u00c9 tipo estar sempre segurando a respira\u00e7\u00e3o, sabe? E isso marca, mexe com tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros falam por si: entre pessoas trans no Brasil, a taxa de tentativa de suic\u00eddio chega a 43,1%.[4] N\u00e3o \u00e9 de assustar? Quando a gente v\u00ea um n\u00famero desses, n\u00e3o \u00e9 um &#8220;caso&#8221; ou outro. \u00c9 evid\u00eancia de que o sistema inteiro de viol\u00eancia est\u00e1 funcionando mesmo, deixando cicatrizes profundas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual lidam com outra coisa bem pesada: a culpa que a sociedade coloca nelas. Estupro n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o ato violento, \u00e9 a sociedade inteira pedindo para voc\u00ea ficar de boca fechada, te perguntando se estava bebendo, como estava vestida. Pesquisas da UFES est\u00e3o investigando como essas mulheres conseguem se recuperar disso, o que chamam de &#8220;crescimento p\u00f3s-traum\u00e1tico&#8221;, mas \u00e9 tipo tirar \u00e1gua do po\u00e7o com balde furado.[1]<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Racismo na inf\u00e2ncia: quando a crian\u00e7a aprende cedo que n\u00e3o vale nada.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tem algo que machuca mais ainda: quando a viol\u00eancia come\u00e7a l\u00e1 no comecinho da vida. Crian\u00e7as negras em comunidades perif\u00e9ricas crescem sob impacto direto da viol\u00eancia urbana \u2014 perdem dias de aula porque tem confronto, deixam de tomar vacina, vivem em estado de perigo o tempo todo.[7] Tudo isso n\u00e3o \u00e9 experi\u00eancia passageira. Fica marcado no c\u00e9rebro.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa mostra que o racismo funciona como uma experi\u00eancia adversa que provoca &#8220;estresse t\u00f3xico&#8221;, aquele estresse que mexe com o desenvolvimento normal do c\u00e9rebro da crian\u00e7a, afetando aprendizagem, mem\u00f3ria, at\u00e9 a capacidade de lidar com emo\u00e7\u00f5es.[7] \u00c9 como se a gente estivesse pedindo para o c\u00e9rebro da crian\u00e7a trabalhar em sobrecarga constantemente.<\/p>\n\n\n\n<p>E tem mais: quando crian\u00e7as negras enfrentam racismo cotidiano na escola, quando a hist\u00f3ria da sua gente n\u00e3o aparece nos livros, quando professores ignoram coment\u00e1rios racistas de colegas, a crian\u00e7a internaliza uma mensagem muito clara: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o pertence aqui, voc\u00ea n\u00e3o vale.&#8221;[10] Isso n\u00e3o desaparece. Fica no inconsciente, afetando como essa pessoa se v\u00ea pelo resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A escola que deveria proteger e acaba machucando.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As escolas civis-militares viraram exemplo disso. Tem reportagem do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal mostrando que estudantes LGBTQIAPN+ e negros s\u00e3o perseguidos por expressar sua identidade, sofrem abordagens agressivas de policiais militares dentro de sala de aula, t\u00eam sua liberdade cerceada.[19] Isso \u00e9 viol\u00eancia institucional disfar\u00e7ada de &#8220;disciplina&#8221; e &#8220;ordem&#8221;. E as crian\u00e7as absorvem tudo isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O bullying tamb\u00e9m \u00e9 assim. A gente pensa que \u00e9 s\u00f3 imaturidade de adolescente, mas \u00e9 bem mais s\u00e9rio. Quando meninos classificam meninas como &#8220;acess\u00edveis&#8221; ou &#8220;estupr\u00e1veis&#8221;, quando adolescentes trans s\u00e3o impedidos de usar banheiro de acordo com sua identidade, quando a hist\u00f3ria afro-brasileira \u00e9 quase invis\u00edvel no curr\u00edculo, tudo isso interfere radicalmente no desenvolvimento psicol\u00f3gico.[10] E frequentemente os adultos n\u00e3o veem por que a viol\u00eancia acontece nos espa\u00e7os invis\u00edveis das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O inconsciente racista: porque a gente n\u00e3o consegue tirar racismo da cabe\u00e7a com argumentos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui est\u00e1 uma coisa meio complicada da psican\u00e1lise lacaniana: o racismo n\u00e3o funciona s\u00f3 no n\u00edvel de argumenta\u00e7\u00e3o racional. [11] Ele funciona atrav\u00e9s de fantasias inconscientes sobre o corpo do outro, sobre aquilo que &#8220;falta&#8221; ou &#8220;sobra&#8221; naquele corpo. \u00c9 profundo demais para a consci\u00eancia atingir com argumentos bonitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso quer dizer que combater racismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 levar dados e fatos para a pessoa. \u00c9 descolonizar a pr\u00f3pria psican\u00e1lise que a gente usa, trazer pensadores da di\u00e1spora africana e da ancestralidade ind\u00edgena.[9] Porque o racismo est\u00e1 enraizado em institui\u00e7\u00f5es, em leis, em pr\u00e1ticas que se apresentam como &#8220;naturais&#8221; e &#8220;inevit\u00e1veis&#8221;, mas que s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas mesmo.[14] E isso marca o desenvolvimento das pessoas porque define desde cedo quem merece respeito, quem pode ocupar espa\u00e7os, cujo corpo \u00e9 digno de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O grande desafio: transformar essa realidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se a gente entende que a viol\u00eancia contra minorias n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema individual ou familiar, mas estrutural, ent\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisa ser estrutural. Significa investir em forma\u00e7\u00e3o antirracista para os professores, descolonizar curr\u00edculos que apagam hist\u00f3rias e culturas, criar pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica que respeitem o desenvolvimento infantil em vez de criminaliz\u00e1-lo. [7][10]<\/p>\n\n\n\n<p>Significa tamb\u00e9m que cada um de n\u00f3s precisa se olhar no espelho. Porque a gente participa dessa viol\u00eancia, atrav\u00e9s da linguagem que usa, das piadas que tolera, do sil\u00eancio quando algu\u00e9m fala algo degradante.[8] Como aquela colunista disse bem direto: antes de agredir ou matar, \u00e9 preciso deixar de reconhecer como igual. E a gente faz isso todos os dias sem perceber.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma psican\u00e1lise que escuta o social.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O lado esperan\u00e7oso disso tudo \u00e9 que pesquisadores brasileiros est\u00e3o oferecendo caminhos reais. Est\u00e3o investigando crescimento p\u00f3s-traum\u00e1tico em mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual, n\u00e3o s\u00f3 o sofrimento, mas tamb\u00e9m como essas pessoas conseguem desenvolver resili\u00eancia.[1] Estudam sa\u00fade mental de pessoas LGBTQIAPN+ n\u00e3o assumidas, buscando entender as estrat\u00e9gias que elas usam para sobreviver em contextos de isolamento e discrimina\u00e7\u00e3o.[1] Tudo isso aponta para uma psican\u00e1lise mais humanizada, mais pr\u00f3xima da realidade brasileira mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio agora \u00e9 transformar esse conhecimento em a\u00e7\u00e3o de verdade, em pol\u00edticas p\u00fablicas, em mudan\u00e7as nas institui\u00e7\u00f5es, em uma reconfigura\u00e7\u00e3o da sociedade que reconhe\u00e7a que todo mundo merece respeito e dignidade. Porque viol\u00eancia contra minorias n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 gente traumatizada que precisa de terapia. \u00c9 uma sociedade inteira que precisa ser radicalmente transformada. E isso come\u00e7a em casa, na escola, no trabalho, come\u00e7a na gente mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisa de ajuda? (<a href=\"https:\/\/wa.me\/+5511983062726\" title=\"clique aqui\">clique aqui<\/a>) <a href=\"http:\/\/www.marciorenzo.com.br\" title=\"Dr. Marcio Renzo\">Dr. Marcio Renz<\/a>o &#8211; Psican\u00e1lise e Hipnoterapia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Fontes citadas:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>[1] Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (UFES). &#8220;Pesquisas investigam impactos da viol\u00eancia na sa\u00fade mental de mulheres e de pessoas LGBTQIAP+.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[4] BMC Public Health. &#8220;Factors associated with transgender people mortality due to violence in Brazil (2014-2022).&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[7] O Globo\/UOL. &#8220;Primeira inf\u00e2ncia e equidade: desafios do racismo, dos territ\u00f3rios e da seguran\u00e7a no Brasil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[8] Di\u00e1rio do Nordeste. &#8220;A linguagem como viol\u00eancia, exceto quando o alvo s\u00e3o as mulheres.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[9] Blog Abarca Psic\u00f3logo. &#8220;Psican\u00e1lise Contextualizada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[10] Jornal da Unicamp. &#8220;Ensino da hist\u00f3ria afro-brasileira ainda enfrenta barreiras.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[11] Juliane Mena. &#8220;Psican\u00e1lise e o Pensamento Decolonial &#8211; Racismo e subjetividade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[12] Veja. &#8220;Filme sobre Frantz Fanon ganha data de estreia no Brasil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[14] Scielo. &#8220;Ra\u00e7a e racismo: aspectos conceituais, hist\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>[19] Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. &#8220;MPF recorre de decis\u00e3o que validou regras de escolas militares.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe aquele ditado que a gente ouve por a\u00ed: &#8220;as palavras n\u00e3o machucam&#8221;? 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