Conectados, porém distantes: quando a conexão digital não produz vínculo.
Imagem criada por IA
Há uma cena que se repete com frequência no meu consultório e que, confesso, tem me feito pensar bastante sobre o modo como estamos vivendo. Pessoas chegam para as sessões contando que passam o dia inteiro conectadas, conversando com amigos, participando de grupos, acompanhando a vida de outras pessoas e respondendo mensagens. Ainda assim, quando precisam falar sobre algo que realmente importa, percebem que se sentem profundamente sozinhas.
É curioso. Nunca foi tão fácil encontrar alguém. Uma mensagem atravessa continentes em poucos segundos, uma chamada de vídeo coloca duas pessoas frente a frente mesmo quando estão separadas por milhares de quilômetros e as redes sociais nos permitem acompanhar, quase em tempo real, a vida de pessoas que talvez nunca encontraremos pessoalmente. E, apesar de tudo isso, cresce a sensação de que estamos cada vez mais distantes uns dos outros.
Esse é, talvez, um dos grandes paradoxos do nosso tempo: estamos permanentemente conectados, mas nem sempre verdadeiramente vinculados.
Não acredito, entretanto, que devemos transformar a internet em vilã. Seria uma conclusão fácil demais. A tecnologia trouxe benefícios enormes para a humanidade. Aproximou famílias, criou novas possibilidades de trabalho e estudo, facilitou o acesso à informação e permitiu que relações importantes fossem preservadas apesar da distância.
O problema começa em outro lugar: quando a conexão deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar o lugar do encontro.
E essa diferença, embora pareça pequena, muda completamente a experiência de uma relação.
Estamos conversando ou apenas trocando mensagens?
No atendimento, percebo cada vez mais pessoas que dizem conversar muito, mas encontram enorme dificuldade para dialogar. Trocam mensagens durante o dia inteiro, enviam áudios, fotografias, vídeos e emojis, acompanham o que os outros estão fazendo e sabem praticamente tudo sobre a rotina de seus contatos.
Entretanto, quando surge um conflito verdadeiro, a situação muda.
A mensagem incomodou? Bloqueia-se.
A resposta não veio como esperávamos? Surge a ansiedade.
A conversa ficou desconfortável? Interrompe-se.
A relação começou a exigir explicações? Muitas vezes, desaparece.
É claro que precisamos fazer uma distinção importante. Existem relações abusivas, violentas e destrutivas das quais precisamos nos afastar. Nesses casos, estabelecer limites não é fugir do conflito; é proteger-se.
Estou falando, porém, de algo diferente: da dificuldade crescente de suportar qualquer desconforto dentro de uma relação.
Afinal, relacionar-se significa também lidar com diferenças. O outro não pensa exatamente como nós, não responde sempre da maneira que esperamos, nem está disponível o tempo inteiro. E, justamente por isso, uma relação verdadeira exige algo que a comunicação digital nem sempre favorece: a capacidade de permanecer diante daquilo que nos incomoda.
Quando estamos frente a frente com alguém, existe o olhar, o silêncio, a expressão do rosto, o tom de voz e até aquele constrangimento que aparece quando percebemos que fomos longe demais. Não conseguimos editar o outro como editamos uma mensagem.
Talvez seja justamente essa falta de controle que torna o encontro tão humano.
O celular talvez não seja o verdadeiro problema.
Por isso, quando alguém me procura no consultório dizendo que passa muitas horas no celular, procuro não começar pela contagem das horas.
Minha primeira pergunta costuma ser outra:
“O que você procura quando pega o celular?”
A resposta pode revelar muito mais do que o tempo de uso.
Algumas pessoas procuram companhia. Outras buscam distração. Há quem tente diminuir a ansiedade, fugir do tédio ou simplesmente não pensar. Em determinadas situações, a pessoa está tentando escapar de sentimentos que não sabe muito bem como enfrentar.
A tela oferece uma solução aparentemente simples para isso. Sentiu-se sozinho? Há alguém on-line. Ficou ansioso? Há informações para pesquisar. Está entediado? Há vídeos. Sentiu-se inseguro? Existem curtidas, comentários e possibilidades de aprovação.
Por alguns instantes, funciona. O problema é que o alívio passa.
Então a pessoa volta para a tela. Procura novamente alguma coisa que diminua aquela sensação. E, pouco a pouco, pode surgir um ciclo difícil de interromper: angústia, conexão, alívio momentâneo, nova angústia e nova conexão.
Nesse sentido, muitas vezes o celular não é a origem do problema. Ele pode ser apenas o objeto por meio do qual determinado conflito psíquico encontra uma forma de expressão.
Freud e a nossa dificuldade de suportar a espera.
Freud não conheceu a internet, as redes sociais ou os smartphones. Ainda assim, algumas de suas ideias continuam sendo úteis para pensar o que estamos vivendo.
A vida psíquica não funciona apenas pela busca permanente do prazer. Somos atravessados por desejos, conflitos, frustrações e repetições. Nem tudo pode ser satisfeito imediatamente.
E aqui encontramos uma questão muito interessante.
A tecnologia contemporânea nos acostumou à velocidade. A informação chega rapidamente, a comida pode ser entregue em poucos minutos, uma compra pode ser feita com alguns toques e uma pessoa que está do outro lado do mundo pode receber nossa mensagem quase instantaneamente.
A vida emocional, entretanto, não acompanha essa velocidade. O luto precisa de tempo. A confiança precisa de tempo. O amor precisa de tempo. A elaboração de uma experiência dolorosa precisa de tempo.
Talvez estejamos ficando menos tolerantes justamente com aquilo que não pode ser resolvido imediatamente.
Na minha experiência clínica, percebo que muitas pessoas não sabem mais o que fazer quando não existe uma resposta rápida. A espera gera ansiedade. O silêncio parece abandono. A demora de uma mensagem pode ser interpretada como rejeição.
E talvez seja necessário recuperar uma compreensão importante: nem todo desconforto precisa ser eliminado imediatamente. Alguns desconfortos precisam ser compreendidos.
A pessoa que mostramos e a pessoa que somos.
Jung nos oferece outra perspectiva interessante para compreender a vida digital.
Entre seus conceitos está a ideia de persona, a imagem social que apresentamos ao mundo. Todos nós utilizamos personas. Somos diferentes com nossos filhos, parceiros, colegas de trabalho, amigos e desconhecidos. Isso faz parte da convivência.
Nas redes sociais, entretanto, essa construção ganhou uma dimensão extraordinária.
Escolhemos a fotografia. Editamos a imagem. Selecionamos a experiência. Pensamos na legenda.
Decidimos o que será mostrado e o que permanecerá escondido.
Não significa necessariamente que estejamos mentindo. Estamos selecionando uma parte da nossa vida para apresentar.
O problema começa quando essa representação se torna uma obrigação.
Precisamos parecer felizes. Precisamos parecer produtivos. Precisamos parecer interessantes. Precisamos parecer bem-sucedidos. Precisamos parecer emocionalmente equilibrados.
Mas a vida real não funciona assim.
Na vida real existem dias ruins, inseguranças, fracassos, dúvidas, conflitos e momentos em que simplesmente não sabemos o que fazer.
E, quanto maior a distância entre aquilo que mostramos e aquilo que sentimos, maior pode ser o sofrimento.
É nesse ponto que o conceito junguiano de sombra também pode nos ajudar. Aquilo que não reconhecemos em nós mesmos pode acabar sendo projetado no outro.
Talvez isso explique, ao menos em parte, por que as redes sociais se transformaram em ambientes tão intensos de julgamento, intolerância e polarização.
É muito mais fácil atacar uma imagem do que olhar para a pessoa que existe por trás dela.
Muitos contatos, poucos vínculos.
Existe outra questão que encontro com frequência no ambiente clínico e que considero particularmente preocupante.
Há pessoas com centenas de contatos no telefone que não sabem para quem ligar quando estão sofrendo.
Há pessoas com milhares de seguidores que se sentem completamente desconhecidas.
Há pessoas que recebem mensagens o dia inteiro, mas não possuem alguém com quem possam conversar sem precisar esconder suas fragilidades.
Isso acontece porque precisamos diferenciar duas coisas: ser visto e ser reconhecido.
Ser visto não significa necessariamente ser compreendido.
Receber curtidas não significa sentir-se amado.
Ter seguidores não significa ter intimidade.
Estar conectado não significa necessariamente estar acompanhado.
A solidão, afinal, não é simplesmente a ausência de pessoas. Podemos estar cercados por gente e ainda assim sentir que ninguém realmente nos conhece.
Talvez uma das necessidades humanas mais profundas seja justamente encontrar alguém diante de quem não precisamos representar.
Alguém com quem possamos dizer: “Hoje não estou bem”, sem precisar explicar ou transformar esse sofrimento em uma imagem.
Quando a comparação se torna uma forma de sofrimento?
Outro aspecto que merece atenção é a comparação.
Nas redes sociais, somos constantemente expostos àquilo que parece ser a melhor versão da vida dos outros. Vemos viagens, relacionamentos felizes, corpos idealizados, conquistas profissionais, famílias aparentemente perfeitas e uma sequência interminável de momentos especiais.
Enquanto isso, conhecemos muito bem nossos próprios bastidores.
Sabemos das nossas dificuldades, inseguranças, contas, problemas familiares, fracassos e dias em que não temos vontade sequer de sair da cama.
E então fazemos uma comparação profundamente injusta: colocamos a nossa vida real diante da versão editada da vida de outra pessoa.
Não é difícil imaginar o resultado.
“Todo mundo está avançando menos eu.” “Minha vida não é tão interessante.” “Eu deveria estar melhor.” “Por que não consigo ser como aquela pessoa?”
A rede social pode transformar a vida em uma espécie de avaliação permanente.
E, quando passamos a imaginar que estamos sendo observados o tempo inteiro, até descansar pode parecer um fracasso.
Quando a conexão começa a ocupar o lugar da vida.
É importante ter cuidado para não transformar todo uso intenso da tecnologia em doença.
Existem pessoas que trabalham conectadas. Outras estudam pela internet. Há quem mantenha amizades importantes por meio das redes. Para muitas pessoas, o ambiente digital representa apoio, pertencimento e oportunidade.
A preocupação aparece quando a tecnologia começa a substituir sistematicamente experiências fundamentais.
Quando o sono é prejudicado. Quando encontros presenciais deixam de acontecer. Quando o trabalho ou os estudos começam a ser afetados. Quando a pessoa não consegue interromper o uso. Quando ficar sem o celular provoca irritação ou ansiedade intensa. Quando a comparação com outras pessoas se torna fonte permanente de sofrimento. Ou quando a tela passa a ser utilizada quase sempre como uma maneira de evitar sentimentos difíceis.
Nesse momento, talvez seja importante olhar para além do aparelho.
A pergunta deixa de ser apenas “quanto tempo você passa conectado?” e passa a ser:
“O que está acontecendo dentro de você enquanto permanece conectado?”
Talvez precisemos reaprender a ficar em silêncio.
Tenho a impressão de que uma das coisas que estamos perdendo é a capacidade de simplesmente permanecer.
Permanecer em uma fila sem pegar o celular. Fazer uma refeição sem verificar notificações. Conversar sem olhar para a tela. Caminhar sem precisar registrar o caminho. Esperar uma resposta sem imaginar imediatamente o pior. Ficar sozinho por alguns minutos sem procurar alguém.
Parece pouco, mas não é.
O silêncio permite que pensamentos apareçam. A espera permite que o desejo se organize. A ausência permite perceber o que sentimos.
Quando ocupamos imediatamente todo espaço vazio com estímulos, talvez estejamos evitando justamente aquilo que poderia nos ajudar a compreender nossa própria experiência.
E talvez esse seja um dos grandes desafios da vida contemporânea: aprender novamente a conviver com o vazio sem precisar preenchê-lo imediatamente.
A tecnologia não precisa ser nossa inimiga.
Não acredito que devamos voltar a um passado idealizado. A internet faz parte da nossa realidade e continuará fazendo.
A questão não é abandonar a tecnologia. É recuperar a capacidade de escolher como nos relacionamos com ela.
Somos nós que decidimos quando nos conectar? Ou somos permanentemente convocados por notificações?
Utilizamos as redes para ampliar nossos vínculos? Ou para evitar aqueles que nos incomodam?
Estamos compartilhando a nossa vida? Ou estamos vivendo para produzir algo que possa ser compartilhado?
São perguntas diferentes e, talvez, bastante importantes.
Porque uma relação saudável com a tecnologia não depende apenas da quantidade de horas diante da tela. Depende também da liberdade que temos para sair dela.
Precisamos transformar conexão em vínculo!
A internet não criou a solidão.
Ela encontrou uma humanidade que já carregava medos, inseguranças, desejos, conflitos, necessidade de reconhecimento e dificuldade de lidar com a diferença e ofereceu novas formas de expressar tudo isso.
Por isso, não acredito em discursos que simplesmente demonizam as redes sociais.
Também não acredito que exista um número mágico de horas que determine quando alguém está saudável ou doente.
Como psicanalista, acredito que precisamos recuperar uma experiência que nenhuma tecnologia consegue oferecer completamente: a possibilidade de sermos escutados sem precisar representar.
Uma relação profunda não é aquela em que nunca existe conflito. É aquela em que existe espaço para elaborá-lo.
Não é aquela em que tudo é compartilhado. É aquela em que existe confiança suficiente para que algumas coisas permaneçam íntimas.
Não é aquela que exige respostas imediatas. É aquela que suporta o tempo necessário para que uma experiência se transforme em palavra.
No final, talvez a pergunta mais importante não seja quantas pessoas temos ao nosso alcance.
Talvez seja outra:
Com quantas pessoas conseguimos realmente estar presentes?
Porque podemos estar conectados ao mundo inteiro e continuar profundamente sozinhos.
E, ao contrário, podemos estar diante de uma única pessoa sem celular, sem notificações, sem filtros e sem a necessidade de produzir uma imagem e experimentar aquilo que nenhuma rede social consegue oferecer sozinha: um verdadeiro encontro.
