
Dra Rafaella Ronchi Zienlli
Cirurgiã dentista especialista em Endodontia, com mais de 20 anos de experiência. Professora de pós graduação na área da Endodontia; Consultora científica e speaker de empresa multinacional de produtos odontológicos; Possui Mestrado e Doutorado com foco de pesquisa na área de Terapia Pulpar Vital e Biocerâmicos. Palestrante Nacional e Internacional.
27/06/2026
Terapia Pulpar Vital: uma alternativa moderna ao tratamento de canal

Cada dente é uma estrutura biológica complexa, composta por tecidos especializados que desempenham funções específicas. Um desses tecidos é a polpa dentária, um tecido conjuntivo altamente vascularizado e inervado, rico em células como os odontoblastos, células de defesa e fibras nervosas. Popularmente conhecida como o “coração do dente”, a polpa é responsável pela manutenção da vitalidade dentária e pela capacidade de resposta frente a diferentes estímulos.
Quando sentimos dor em um dente, isso geralmente indica que alguma alteração fisiológica ou inflamatória está ocorrendo nesse tecido. No entanto, nem toda sensação dolorosa está necessariamente associada a um processo inflamatório. Em determinadas situações, variações bruscas de temperatura, como a ingestão de alimentos ou bebidas muito quentes ou frios, podem desencadear uma resposta dolorosa transitória. Isso ocorre porque os receptores pulpares respondem às alterações térmicas por meio de mecanismos neurofisiológicos que são interpretados pelo organismo como dor.
Diversos fatores podem levar à inflamação da polpa dentária, entre eles a cárie, os traumatismos dentários, as trincas, as fraturas coronárias e os procedimentos restauradores extensos. Em muitos casos, esses estímulos provocam uma inflamação de baixa intensidade e potencialmente reversível. Quando a causa é removida e o tecido mantém sua capacidade de reparo, a polpa pode retornar ao estado de normalidade. Nessas situações, a dor costuma ser provocada por estímulos específicos, como frio, calor ou mastigação, cessando após a remoção do agente desencadeante.
Por outro lado, quando a agressão é mais intensa ou prolongada, o processo inflamatório pode evoluir para estágios mais avançados, manifestando-se clinicamente por dores espontâneas, pulsáteis e persistentes. Tradicionalmente, quadros dessa natureza eram considerados indicações inevitáveis para o tratamento endodôntico, popularmente conhecido como tratamento de canal.
Entretanto, os avanços científicos ocorridos nas últimas décadas têm ampliado as possibilidades terapêuticas para a preservação da vitalidade pulpar. Nesse contexto, destaca-se a Terapia Pulpar Vital, uma abordagem biológica e minimamente invasiva que busca manter a porção saudável da polpa, preservando suas funções fisiológicas e a longevidade do elemento dental.
Embora não seja uma modalidade de tratamento recente, a Terapia Pulpar Vital era historicamente mais empregada em pacientes jovens. Atualmente, o desenvolvimento de materiais bioativos e o fortalecimento das evidências científicas têm permitido a ampliação de suas indicações também para pacientes adultos e idosos.
O tratamento consiste na remoção seletiva do tecido pulpar comprometido, seguida da proteção da polpa remanescente com biomateriais à base de silicato de cálcio. Esses materiais apresentam elevada biocompatibilidade e capacidade de liberação iônica, favorecendo a formação de um ambiente propício ao reparo tecidual e à deposição de tecido mineralizado.
Para o sucesso do tratamento, é fundamental a correta seleção dos casos, a execução criteriosa da técnica sob isolamento absoluto e a realização de uma restauração definitiva que proporcione adequado selamento coronário. Quando esses princípios são respeitados, estudos clínicos têm demonstrado índices de sucesso próximos a 90%. Dessa forma, a presença de dor dentária não deve ser automaticamente associada à necessidade de tratamento endodôntico. O diagnóstico preciso, aliado ao conhecimento das alternativas terapêuticas disponíveis, permite a adoção de condutas cada vez mais conservadoras e biologicamente orientadas. Por isso, a avaliação por um profissional capacitado é essencial para determinar a melhor opção de tratamento para cada situação clínica.
05/04/2026
Anestesia odontológica: controle da dor, conforto e previsibilidade clínica

Compreender as formas de controle da dor no atendimento odontológico é essencial para garantir conforto ao paciente e permitir que o tratamento seja realizado com máxima qualidade, segurança e previsibilidade. Mais do que um recurso técnico, a anestesia é parte fundamental da experiência clínica e influencia diretamente a forma como o paciente percebe o atendimento.
Na maioria das vezes, o paciente chega ao consultório ansioso e apreensivo em relação ao procedimento. Por isso, o gerenciamento da dor começa antes mesmo da aplicação do anestésico. Um bom acolhimento, uma conversa tranquila, a explicação clara do que será realizado e o esclarecimento de dúvidas e incertezas já fazem parte do controle da dor. Reduzir a ansiedade é o primeiro passo para um atendimento mais confortável e seguro.
Entre os anestésicos disponíveis na prática clínica, a lidocaína permanece como a solução mais conhecida e utilizada. Seu perfil de eficácia e segurança a torna uma escolha confiável para a maioria dos procedimentos. Para prolongar o tempo de ação anestésica e retardar sua absorção sistêmica, aumentando a segurança clínica, associa-se ao anestésico um vasoconstritor — sendo a epinefrina o mais comum.
Apesar do receio que ainda existe em torno da epinefrina, é importante destacar que ela se apresenta em concentrações extremamente diluídas, geralmente na proporção de 1:100.000. Dentro das doses recomendadas e com indicação adequada, seu uso é seguro, inclusive em pacientes com comprometimento cardiovascular.
Além da escolha do anestésico, a técnica de aplicação exerce papel decisivo no conforto do paciente. A injeção não deve ser traumática, e isso depende do conhecimento anatômico do profissional, do domínio técnico e da execução cuidadosa da manobra anestésica. O uso de agulhas e anestésicos de qualidade, incluindo soluções com siliconização interna do tubete — que favorecem o deslizamento durante a aplicação —, associado a uma injeção lenta e controlada, a conhecida “mão leve”, faz toda a diferença. Quando bem conduzida, a anestesia pode se tornar praticamente imperceptível.
Alguns casos, no entanto, representam maior desafio clínico, como dentes inferiores com processo inflamatório intenso. Nessas situações, a anestesia pode apresentar menor previsibilidade, mas ainda assim é possível adotar estratégias que aumentam significativamente as taxas de sucesso.
Nesse contexto, a articaína representa um importante avanço na anestesia odontológica. Desenvolvida especialmente para a prática odontológica, é cerca de 1,5 a 2 vezes mais potente que a lidocaína e apresenta maior capacidade de difusão pelos tecidos, inclusive através de estruturas ósseas mais densas, como a mandíbula. Essa característica a torna especialmente útil em casos mais desafiadores.
Outro diferencial da articaína é seu menor pKa em comparação à lidocaína, o que favorece sua dissociação nos tecidos e contribui para uma ação anestésica mais eficiente. Devido à sua alta efetividade, ainda há quem associe esse anestésico a maior toxicidade. No entanto, trata-se de uma solução segura, com metabolismo predominantemente plasmático e rápida eliminação pelo organismo.
A evolução da anestesia odontológica acompanha a própria evolução da Odontologia. Hoje, controlar a dor não é apenas uma etapa do procedimento, mas um princípio que orienta todo o atendimento. Um protocolo anestésico bem executado melhora a qualidade clínica, aumenta a segurança e transforma a experiência do paciente. No fim, uma boa anestesia não apenas viabiliza o tratamento — ela constrói confiança, reduz traumas e contribui para uma percepção mais positiva da Odontologia.
________________________________________________________________________________________________
20/03/2026
DIA MUNDIAL DA SAÚDE BUCAL: PEQUENOS CUIDADOS, GRANDES BENEFÍCIOS

Inicio com esta matéria a minha primeira participação como colunista da Revista Vi. O objetivo desta coluna é trazer informações relevantes e atualizadas sobre saúde bucal. Como professora da área, os temas serão frequentemente direcionados aos dentistas, mas sempre de uma forma que também possam ser compreendidos por todos, especialmente no papel de pacientes. A ideia é aproximar o conhecimento científico do dia a dia das pessoas, mostrando como ele se aplica na prática e como pode contribuir para a promoção da saúde.
Começaremos falando de um tema essencial quando pensamos em qualidade de vida: a prevenção. No dia 20 de março é celebrado o Dia Mundial da Saúde Bucal, uma data criada para conscientizar a população sobre a importância dos cuidados com a boca e sua relação direta com a saúde geral. Mais do que uma comemoração, este é um momento de reflexão sobre hábitos simples que fazem toda a diferença na manutenção de um sorriso saudável, pequenos hábitos que podem se tornar uma rotina saudável ou não. Essa educação começa literalmente no berço: limpar a boquinha do bebê com uma fralda umedecida após cada mamada, na erupção dos primeiros dentinhos usar a primeira escovinha, mostrar ao bebê como fazer, como limpar, aos primeiros sinais de coordenação motora deixar a criança escovar com supervisão e assim vai. A primeira consulta ao dentista pode ser feita a qualquer momento, quanto antes melhor para que a criança consiga associar aquele momento não somente a um hábito saudável mas sim a uma lembrança agradável.
Consultas periódicas ao dentista devem ser mantidas por toda infância e vida adulta para manutenção da saúde bucal, sendo que a ausência dessa prática pode esconder a identificação precoce de problemas e levar a necessidade de intervenções mais invasivas e complicações futuras.
Diariamente deve-se seguir uma rotina de higiene que contempla ações simples e de baixo custo: escova, creme e fio dental.
A escovação promove a remoção mecânica de restos alimentares prevenindo a formação de placa bacteriana que pode dar origem ao tártaro e cárie dental. O fio dental limpa onde as cerdas da escova não alcançam, entre os dentes. Essa limpeza deve ser realizada várias vezes ao dia, sempre que nos alimentarmos. Fazendo uma analogia à sujeira que enxergamos no nosso dia a dia é como lavar louça, se deixamos, ela continua suja e cada vez fica mais difícil de limpar porque ela vai ficando impregnada. Só que isso acontece dentro da nossa boca. Já pensou nisso?
Escovas com cerdas macias são mais adequadas pois são mais suaves aos tecidos moles, o que limpa de verdade é técnica e não a dureza das cerdas. Elas devem ser trocadas a cada 3 meses por uma nova, porém caso note que as cerdas estão abertas ou no caso de ter sido acometido de alguma infecção oral essa troca deve ser feita antes desse prazo.
A prevenção ainda é a forma mais simples, eficaz e acessível de manter um sorriso saudável. E ela começa com informação, conscientização e atitudes diárias. Neste Dia Mundial da Saúde Bucal, fica o convite para refletirmos sobre nossos hábitos e lembrarmos que a saúde começa pela boca — e que cada pequeno cuidado de hoje pode representar grandes benefícios no futuro.
