Moda que permanece: por que peças atemporais estão ganhando espaço em um mercado obcecado por tendências
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Em meio à velocidade das novidades, fabricante do Brás aposta em peças versáteis e de longa vida útil para atender consumidoras que querem comprar melhor e lojistas que precisam vender mais
Durante anos, a indústria da moda foi movida pela velocidade. A cada temporada, uma nova tendência chegava às vitrines, às redes sociais e, consequentemente, aos guarda-roupas.
Mas o comportamento do consumidor está mudando.
Em vez de comprar apenas pela novidade, muitas mulheres passaram a buscar peças que possam ser usadas em diferentes ocasiões, combinadas de várias maneiras e incorporadas ao guarda-roupa por mais tempo.
É nesse cenário que conceitos como moda atemporal e guarda-roupa inteligente ganham força.
Para a empresária Mayara Mirttes, à frente da Miglis Fashion, fabricante de moda feminina no Brás, essa mudança representa não apenas uma tendência de consumo, mas uma oportunidade para lojistas repensarem o mix de produtos que oferecem.
Nem tudo precisa ser novidade
A velocidade da moda criou uma contradição: quanto mais tendências surgem, mais difícil pode ser construir um guarda-roupa funcional.
Uma peça pode estar em alta durante algumas semanas e perder espaço rapidamente. Já determinados modelos atravessam temporadas justamente porque conseguem se adaptar a diferentes estilos e momentos.
“Eu acredito muito mais em uma peça que a mulher consegue usar de várias formas do que em uma roupa que só funciona para uma determinada tendência”, afirma Mayara.
Para ela, a moda não precisa deixar de ser atual para ser atemporal.
“Uma peça pode ter um detalhe moderno, uma modelagem bonita, uma cor da estação, mas continuar funcionando depois. É isso que considero uma compra inteligente.”

O guarda-roupa inteligente muda a relação com a roupa
A ideia de guarda-roupa inteligente parte de uma lógica simples: ter menos peças, mas conseguir criar mais possibilidades.
Uma camisa, por exemplo, pode ser usada com calça de alfaiataria para uma produção mais sofisticada, com jeans para uma proposta casual ou aberta sobre uma camiseta para criar uma terceira peça.
Essa versatilidade aumenta o número de combinações sem exigir necessariamente um guarda-roupa maior.
“Quando desenvolvemos uma peça, pensamos muito nisso. Ela precisa conversar com outras peças. A mulher precisa conseguir olhar para aquela roupa e imaginar várias possibilidades”, explica Mayara.
Segundo ela, esse raciocínio também ajuda o lojista.
“Se uma peça permite várias combinações, fica mais fácil mostrar o produto para a cliente e criar conteúdo. Você não está vendendo apenas uma roupa, está mostrando vários looks possíveis.”
A camisaria como exemplo de longevidade
Entre as peças que melhor representam esse conceito está a camisa.
A camisaria atravessa gerações, estilos e diferentes momentos da moda. Pode assumir uma estética clássica, sofisticada, casual ou contemporânea dependendo do tecido, da modelagem e da maneira como é combinada.
Na Miglis, a categoria ocupa um lugar de destaque justamente por essa capacidade de adaptação.
“A camisa é uma peça que nunca depende de uma única tendência. Você consegue mudar a forma de usar, colocar por dentro, por fora, aberta, fechada, com uma terceira peça. Ela se transforma junto com a mulher”, afirma Mayara.
Essa característica faz com que a camisaria também tenha potencial comercial para o varejo.
“Para o lojista, uma peça assim é muito interessante porque ele consegue trabalhar com diferentes públicos e apresentar vários looks com o mesmo produto.”
Qualidade também é estratégia de venda
A busca por peças mais duráveis traz outro elemento para o centro da discussão: qualidade.
Em um mercado no qual o consumidor é constantemente estimulado a comprar novidades, a percepção de valor passa também pela construção e pelo acabamento da roupa.
Como a Miglis possui fabricação própria, Mayara acompanha de perto etapas que começam na escolha do tecido e passam por corte, costura e acabamento.
“Quando você está dentro da fabricação, percebe que pequenos detalhes fazem muita diferença. O tecido, a modelagem, o corte, a costura. Tudo isso interfere em como a peça veste e em quanto tempo ela continua bonita.”
Para a empresária, qualidade não deve ser tratada apenas como argumento de venda.
“É uma responsabilidade com quem está comprando. A pessoa vai investir naquele produto e espera conseguir usar muitas vezes.”

O consumidor também está mais atento ao custo-benefício
A discussão sobre moda atemporal não significa necessariamente falar em roupas caras.
Na verdade, o conceito está relacionado ao valor que uma peça entrega ao longo do tempo.
Uma roupa utilizada poucas vezes pode representar um custo elevado por uso, mesmo que tenha sido comprada por um preço baixo. Já uma peça que entra na rotina e é usada diversas vezes pode apresentar uma relação diferente entre preço e benefício.
“O consumidor está começando a perceber que nem sempre comprar mais barato significa comprar melhor. Às vezes você compra uma peça porque está barata, usa duas vezes e ela fica parada. Enquanto uma peça um pouco mais estruturada pode entrar na sua rotina por anos”, explica Mayara.
Essa mudança também pode influenciar a escolha do lojista.
Para o lojista, vender melhor pode ser mais importante do que vender mais
No atacado, a discussão sobre produto precisa considerar o comportamento do consumidor final.
Um lojista pode aumentar seu faturamento não apenas colocando mais produtos na loja, mas escolhendo um mix capaz de gerar diferentes possibilidades de venda.
É nesse ponto que Mayara defende uma mudança de olhar.
“Eu acho que o lojista precisa pensar: essa peça vai ficar bonita só na arara ou eu consigo mostrar para a cliente cinco maneiras de usar? Porque isso muda completamente a experiência de compra.”
A estratégia também favorece a produção de conteúdo.
Uma única peça pode gerar diferentes fotografias, vídeos, combinações e sugestões de looks.
“Hoje o produto precisa funcionar na loja e também no digital. Quanto mais possibilidades ele oferece, mais conteúdo você consegue criar.”
Atemporal não significa sem personalidade
Existe uma diferença importante entre uma peça clássica e uma peça sem identidade.
Para Mayara, apostar no atemporal não significa produzir roupas básicas ou abandonar a criatividade.
“Ser atemporal não significa ser sem graça. Você pode ter uma peça elegante, marcante e atual, mas que continue funcionando daqui a uma temporada.”
Essa visão está diretamente relacionada ao posicionamento que a empresária vem construindo para a Miglis: peças clássicas, elegantes e versáteis, capazes de acompanhar diferentes estilos.
Uma nova oportunidade para o atacado de moda
A mudança no comportamento de consumo também pode representar uma oportunidade para fabricantes e lojistas.
Em vez de apostar exclusivamente em grandes volumes de tendências de curta duração, o mercado pode encontrar valor em produtos capazes de permanecer relevantes por mais tempo.
Para Mayara, essa é uma das direções que devem ganhar espaço.
“Eu acredito que a mulher está ficando mais criteriosa. Ela quer olhar para uma roupa e saber que vai conseguir usar, combinar e aproveitar de verdade.”
E essa mudança pode beneficiar também quem vende.
“Para o lojista, ter um produto versátil significa ter mais argumentos para vender. Ele pode mostrar a peça de diferentes formas, para diferentes ocasiões e para diferentes clientes.”
O futuro pode estar em comprar menos e escolher melhor
A moda não deve deixar de acompanhar tendências. Novas cores, modelagens e referências continuarão surgindo.
O que muda é a maneira como essas novidades passam a conviver com peças que permanecem.

Para Mayara, o equilíbrio está justamente aí.
“Não sou contra tendência. A moda precisa se renovar. Mas acredito que a tendência precisa conversar com aquilo que já existe no guarda-roupa. Não faz sentido comprar uma roupa que você só vai conseguir usar durante um mês.”
A empresária resume sua visão em uma mudança simples de comportamento:
“Quero que a mulher compre uma peça e pense: ‘eu consigo usar isso de muitas maneiras’. Quando isso acontece, você deixa de comprar por impulso e começa a construir um guarda-roupa.”
Em um mercado acostumado a vender velocidade, a valorização daquilo que permanece pode representar uma mudança importante. Para fabricantes e lojistas, a oportunidade está em transformar a roupa de uma simples novidade de temporada em um produto com valor, versatilidade e capacidade real de permanecer na vida do consumidor.
