Outubro Rosa: Quando o câncer interrompe a história que uma mulher contava sobre si mesma.

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Há notícias que chegam e mudam alguma coisa dentro de nós antes mesmo que consigamos compreender exatamente o que está acontecendo. O diagnóstico de câncer é uma delas. Para muitas mulheres, ouvir essa palavra no consultório médico não representa apenas a descoberta de uma doença, mas o início de uma ruptura na história que vinham construindo sobre si mesmas. Até aquele momento, havia uma rotina, uma família, um trabalho, relacionamentos, projetos, viagens, desejos e uma determinada maneira de olhar para o próprio corpo. O futuro, mesmo com suas incertezas, podia ser imaginado com alguma naturalidade. Depois do diagnóstico, entretanto, esse futuro passa a ser acompanhado por exames, consultas, tratamentos e perguntas para as quais nem sempre existem respostas imediatas.

É evidente que o câncer é, antes de tudo, uma questão médica e precisa ser tratado como tal, com diagnóstico adequado, acompanhamento especializado e todas as possibilidades terapêuticas indicadas para cada caso.

Existe, porém, uma dimensão dessa experiência que não aparece nos exames, nas imagens ou nos prontuários: aquilo que acontece dentro da pessoa quando ela percebe que seu corpo, até então vivido como algo familiar, tornou-se também fonte de preocupação. É justamente nesse ponto que acredito que precisamos falar mais sobre a dimensão emocional do câncer, não para transformar a doença em um problema psicológico, muito menos para sugerir que conflitos ou sentimentos sejam responsáveis pelo seu aparecimento, mas para compreender que uma doença pode atingir o corpo e, ao mesmo tempo, provocar profundas repercussões na maneira como alguém percebe a si mesma e a própria vida.

Na clínica, aprendemos que o corpo humano nunca é somente biológico. Ele também é memória, identidade, desejo, sexualidade e imagem.

É por meio dele que nos apresentamos ao mundo e construímos uma parte importante da nossa autoestima e das nossas relações. Por isso, quando o câncer modifica esse corpo, a transformação pode ultrapassar aquilo que é visível. Uma cirurgia, uma cicatriz, a queda dos cabelos, alterações no peso, mudanças hormonais, perda ou redução da fertilidade e modificações na sexualidade podem fazer com que uma mulher olhe para si mesma e, durante algum tempo, não consiga se reconhecer completamente.

Enquanto a medicina procura respostas para tratar a doença, existe uma mulher tentando compreender como continuará vivendo dentro daquele corpo que, de alguma maneira, passou a ser percebido de forma diferente.

É justamente por isso que me incomoda a expectativa de que a mulher diagnosticada precise imediatamente assumir o papel da “guerreira”, daquela que deve demonstrar força, coragem e otimismo o tempo inteiro. É uma imagem que pode funcionar bem em campanhas de conscientização, mas a vida real é muito mais complexa.

Há dias em que essa mulher poderá se sentir forte e esperançosa; em outros, poderá sentir medo, raiva, tristeza, insegurança ou simplesmente vontade de se afastar de tudo aquilo por algumas horas. Ela precisa ter o direito de sentir essas coisas sem que isso seja interpretado como fraqueza.

Não existe uma maneira emocionalmente correta de viver o câncer, porque cada mulher chega ao diagnóstico carregando uma história diferente, com suas experiências, relações, perdas, desejos, medos e maneiras próprias de enfrentar situações difíceis.

Também precisamos compreender que o diagnóstico pode desencadear um processo de luto.

Quando falamos em luto, normalmente pensamos na perda de alguém, mas a experiência humana também produz lutos diante de perdas simbólicas. Uma mulher pode precisar elaborar a perda de uma determinada imagem corporal, de uma rotina, de uma sensação de segurança, de projetos que precisaram ser adiados ou modificados e até mesmo da fantasia de que seu corpo permaneceria sob seu controle.

O Portal Drauzio Varella (https://drauziovarella.uol.com.br) chama atenção justamente para essa dimensão da jornada do câncer, mostrando que sentimentos como medo, tristeza, raiva e culpa podem aparecer diante das mudanças provocadas pela doença e pelo tratamento.

Esse processo, entretanto, não acontece de maneira linear. Uma mulher pode estar esperançosa pela manhã e desesperada à noite; pode conversar tranquilamente com os filhos e chorar sozinha depois; pode querer falar sobre o câncer em determinado momento e desejar esquecer completamente o assunto algumas horas mais tarde.

Essas aparentes contradições não significam necessariamente que ela esteja emocionalmente desorganizada. Muitas vezes, significam apenas que está tentando elaborar uma experiência que modificou profundamente sua percepção de segurança e de futuro. O ser humano não funciona como uma máquina que recebe uma informação, processa e rapidamente encontra uma resposta definitiva. Precisamos de tempo para compreender aquilo que nos acontece.

O diagnóstico também pode atingir profundamente a imagem que construímos de nós mesmos. Freud nos ajuda a pensar sobre isso quando aborda o narcisismo, não no sentido popular de vaidade ou egocentrismo, mas como o investimento que fazemos em nosso próprio corpo, em nossa imagem e naquilo que sentimos ser. Todos sabemos racionalmente que podemos adoecer, mas no cotidiano costumamos viver como se o amanhã fosse uma continuação relativamente segura do hoje.

O câncer pode romper essa fantasia de continuidade e colocar a pessoa diante de uma vulnerabilidade que, até então, podia permanecer distante. O corpo deixa de ser algo que simplesmente funciona e passa a exigir atenção constante, e essa mudança pode produzir uma angústia profunda.

É importante, entretanto, fazer uma distinção que considero fundamental. Compreender o sofrimento psíquico provocado pelo câncer é muito diferente de afirmar que emoções reprimidas, conflitos ou características da personalidade provocaram a doença.

Não considero correto utilizar a psicanálise para produzir culpa em alguém que já está enfrentando uma situação tão delicada. O sofrimento não deve ser transformado em responsabilidade pelo adoecimento. Uma coisa é compreender como a pessoa reage emocionalmente depois de receber um diagnóstico; outra, completamente diferente, é atribuir a ela a causa de sua doença. A própria literatura médica não sustenta uma interpretação simplista desse tipo, e acredito que a psicanálise deve servir para ampliar a compreensão, nunca para culpabilizar.

Existe ainda um outro risco: depois do diagnóstico, a mulher pode desaparecer atrás da condição de paciente. A rotina passa a ser organizada pelos exames, medicamentos, consultas e resultados, e pouco a pouco tudo parece girar em torno da doença. É compreensível que isso aconteça durante o tratamento, mas, subjetivamente, ela continua sendo muito mais do que aquilo que está acontecendo com seu corpo. Continua sendo mãe, filha, companheira, profissional, amiga, mulher que deseja, que sonha, que sente raiva, que faz planos e que possui uma história que começou muito antes do câncer.

Uma reportagem publicada pelo Estadão (https://www.estadao.com.br) sobre a vida para além do consultório também chama atenção para essa necessidade de olhar para a pessoa que existe para além do tratamento.

É nesse espaço que vejo uma contribuição importante da psicanálise. Não para explicar o câncer, prometer cura ou substituir o acompanhamento médico, mas para oferecer um lugar onde a mulher possa falar sobre aquilo que talvez não consiga dizer para ninguém.

Ela pode falar sobre o medo da morte, a raiva de ter adoecido, a vergonha diante do próprio corpo, a dificuldade de se sentir desejada, o medo de perder o companheiro, a preocupação com os filhos, a sensação de ter perdido o controle ou até mesmo sobre a vontade de continuar vivendo normalmente sem precisar pensar o tempo inteiro na doença.

Na minha compreensão, escutar é diferente de oferecer respostas prontas. Muitas vezes, a pessoa não precisa que alguém diga que “vai ficar tudo bem”; ela precisa encontrar um espaço onde possa dizer que, naquele momento, não sabe se ficará tudo bem.

Talvez seja justamente essa a questão que mais merece nossa atenção: depois do diagnóstico, ainda existe uma mulher. O câncer pode interromper uma narrativa, modificar planos, provocar perdas e deixar marcas profundas, mas não precisa ser o último capítulo da história.

Isso não significa romantizar a doença ou afirmar que toda experiência difícil necessariamente produz transformação. Algumas experiências simplesmente são dolorosas, e precisam ser reconhecidas como tais. O que pode existir, depois da ruptura, é a possibilidade de reconstruir uma narrativa que faça sentido para aquela pessoa, respeitando as marcas, os medos e as perdas, mas também aquilo que permaneceu vivo.

Como psicanalista, penso que uma das tarefas mais importantes nesse momento é ajudar a mulher a não desaparecer atrás do diagnóstico. Ela não é o câncer, não é a cicatriz, não é o resultado de um exame e não pode ser reduzida à condição de paciente. Ela é uma mulher cuja história foi atravessada por uma doença e existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Talvez não seja possível voltar exatamente à mulher que existia antes do diagnóstico, e talvez nem seja necessário. O que pode existir é uma nova maneira de se reconhecer, levando consigo aquilo que aconteceu e encontrando novamente espaço para o desejo, para os vínculos, para os projetos e para a própria vida.

No final, talvez a questão mais profunda não seja simplesmente perguntar como vencer o câncer, mas como continuar sendo sujeito da própria vida depois que ele entrou nela.

É nesse ponto que a escuta se torna tão necessária. (peça ajuda)

Quando uma doença rasga a narrativa que alguém vinha construindo sobre si mesma, talvez o primeiro passo não seja tentar escrever imediatamente uma nova história. Talvez seja simplesmente permitir que essa mulher possa contar, com suas próprias palavras, aquilo que aconteceu, aquilo que perdeu, aquilo que teme e aquilo que ainda deseja. E, sobretudo, que encontre alguém disposto a verdadeiramente escutá-la.