Quando a mulher aprende a se diminuir?
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Há mulheres que chegam ao consultório acostumadas a pedir desculpas por existir. Pedem desculpas por falar, por desejar, por discordar, por descansar e até por reconhecer as próprias conquistas. Muitas aprenderam a ocupar pouco espaço para evitar conflitos, críticas ou abandonos.
Essa anulação não nasce de uma suposta fraqueza. Ela costuma ser construída ao longo de uma história marcada por cobranças, silenciamentos, violência psicológica, relações abusivas, responsabilidades excessivas e experiências nas quais seus desejos foram tratados como menos importantes.
Em 2025, o Ligue 180 registrou mais de 155 mil denúncias de violência contra mulheres. Quase 70% dos casos ocorreram dentro de casa, ambiente que deveria representar proteção. (agenciabrasil.ebc.com.br) A violência psicológica, embora muitas vezes invisível, pode produzir efeitos profundos: a mulher passa a duvidar da própria percepção e começa a acreditar que suas necessidades são exageradas.
A voz do outro que passa a morar dentro
Na perspectiva freudiana, aquilo que vivemos não desaparece simplesmente porque deixamos de falar sobre o assunto. Experiências dolorosas podem ser reprimidas, mas continuam produzindo efeitos no inconsciente, influenciando escolhas, relações e expectativas.
A menina que ouviu durante anos que era incapaz pode tornar-se uma adulta competente e, ainda assim, sentir que está enganando as pessoas (Síndrome da Impostora). A mulher que foi ensinada a agradar pode ter dificuldade de dizer “não”. Aquela que sempre precisou cuidar dos outros pode sentir culpa quando tenta cuidar de si.
Freud mostrou que muitas vezes o sofrimento não está apenas no acontecimento, mas na forma como ele permanece atuando dentro de nossa mente. A crítica recebida na infância pode transformar-se em uma voz interna permanente. O agressor pode deixar de estar fisicamente presente, mas continuar representado em pensamentos como: “você não consegue”, “não exagere”, “não decepcione ninguém”.
É nesse processo que o superego pode tornar-se cruel. Em vez de orientar e organizar a vida psíquica, ele passa a exigir um desempenho impossível: ser uma boa mãe, uma excelente profissional, uma companheira disponível, uma filha dedicada e uma mulher sempre bonita, equilibrada e forte.
A sociedade cria a cobrança; muitas vezes, a própria mulher passa a fiscalizar-se em tempo integral.
Não é apenas baixa autoestima
Tenho observado, em minha experiência profissional, que reduzir esse sofrimento à expressão “baixa autoestima” pode ser superficial. A mulher que se anula nem sempre desconhece seu valor. Muitas vezes, ela aprendeu que demonstrá-lo poderia provocar rejeição, inveja, punição ou abandono.
Como psicanalista, percebo que algumas mulheres chegam acreditando que precisam apenas “ser mais fortes”. Entretanto, por trás dessa busca, frequentemente aparecem histórias de negligência afetiva, violência, sobrecarga, relações de dependência emocional e anos de adaptação ao sofrimento.
Meu percurso profissional também influencia essa escuta. Ao longo de 30 anos de dedicação ao Corpo de Bombeiros, vivenciei situações em que resgatar alguém significava muito mais do que lidar com uma emergência física. Muitas vezes, era necessário reconhecer o medo, o silêncio e a vulnerabilidade escondidos por trás de uma aparente resistência.
Antes da psicanálise, minha formação e atuação na fisioterapia ensinaram-me a observar o corpo, seus limites e seus sinais. Na clínica psicanalítica, passei a compreender que o corpo também pode expressar aquilo que a pessoa ainda não conseguiu simbolizar. Cansaço persistente, ansiedade, insônia e crises emocionais não devem ser vistos automaticamente como falta de disciplina ou incapacidade.
Em muitos casos, o corpo está dizendo: “não consigo mais sustentar esse personagem”.
A mulher que precisa dar conta de tudo
A imprensa nacional tem mostrado que esse sofrimento não é uma impressão isolada. Dados do Ministério da Previdência Social divulgados pela CNN Brasil indicaram que as mulheres representaram cerca de 63% dos afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025. A reportagem relacionou o adoecimento à combinação entre responsabilidades profissionais, cuidados familiares e pressão social. (cnnbrasil.com.br)
A Agência Brasil também informou que os afastamentos por transtornos mentais ultrapassaram 440 mil em 2024, mais que o dobro do registrado dez anos antes. Entre as principais causas estavam ansiedade, depressão e reações ao estresse. (cnnbrasil.com.br)
Esses números não significam que todas as mulheres sofram pelas mesmas razões. Mas revelam que o sofrimento feminino precisa ser compreendido dentro de um contexto social. Não é razoável exigir que uma mulher cuide dos filhos, da casa, dos pais, do relacionamento e do trabalho sem que isso tenha consequências emocionais.
Ainda assim, muitas chegam à clínica dizendo: “Eu deveria conseguir”. A pergunta que surge é: quem determinou que ela deveria suportar tudo sozinha?
Quando sobreviver vira uma prisão
A anulação pode ter sido, inicialmente, uma estratégia de sobrevivência. Calar-se pode ter evitado brigas. Ceder pode ter protegido uma relação. Não demonstrar desejos pode ter reduzido riscos. Permanecer disponível para todos pode ter garantido algum reconhecimento.
O problema é que uma defesa criada em determinado momento da vida pode transformar-se em prisão quando continua sendo usada mesmo depois que o perigo passou.
A mulher pode continuar recusando oportunidades porque teme fracassar. Pode permanecer em uma relação porque acredita que não encontrará algo melhor. Pode abandonar projetos porque aprendeu que suas necessidades sempre devem esperar.
Em reportagem da Folha de S.Paulo, dados de pesquisa nacional mostraram que 40,7% das mulheres entrevistadas relataram ter sofrido violência física, sexual ou psicológica praticada por parceiro ou ex-parceiro ao longo da vida. (www1.folha.uol.com.br) Esses dados ajudam a entender por que tantas mulheres demoram a reconhecer a violência: algumas formas de abuso foram naturalizadas como cuidado, ciúme, proteção ou obrigação conjugal.
O que a psicanálise pode oferecer?
A psicanálise não pretende transformar a mulher em alguém que nunca sente medo, culpa ou insegurança. Seu objetivo é possibilitar que ela compreenda a origem desses sentimentos e reconheça quais desejos são realmente seus.
A escuta permite diferenciar o que pertence à própria história daquilo que foi imposto por familiares, parceiros, instituições e padrões sociais. Permite também questionar a culpa: será que ela realmente falhou ou apenas tentou cumprir uma exigência impossível?
Na clínica, muitas vezes o primeiro passo não é “ensinar” a mulher a se valorizar, mas oferecer um espaço em que ela não precise representar força o tempo todo. Um espaço para falar sem ser interrompida, julgada ou corrigida.
Ao falar, ela pode começar a perceber que sua história não se resume ao que fizeram com ela. O passado participa de sua trajetória, mas não precisa determinar todo o seu futuro.
Crescer sem pedir autorização
Superar-se não significa apagar as feridas, nem transformar a dor em uma narrativa de sucesso. Significa poder olhar para o que foi vivido, sem continuar obedecendo integralmente às marcas deixadas por essas experiências.
Crescer pode ser aprender a dizer não. Pode ser aceitar ajuda. Pode ser reconhecer uma conquista sem diminuí-la. Pode ser abandonar a necessidade de agradar a todos. Pode ser voltar a estudar, mudar de profissão, terminar uma relação, cuidar do corpo ou simplesmente descansar sem culpa.
Nenhuma mulher deveria precisar desaparecer para ser amada.
A verdadeira transformação começa quando ela percebe que não precisa continuar ocupando o lugar que um dia foi necessário para sobreviver. O que antes foi silêncio pode transformar-se em palavra. O que antes foi medo pode transformar-se em escolha. E o que antes parecia incapacidade pode revelar-se apenas uma vida inteira vivida sob excesso de cobrança.
A mulher que se anula não é necessariamente fraca. Muitas vezes, ela foi ensinada a acreditar que existir plenamente era perigoso. A psicanálise pode ajudá-la a descobrir que crescer não é trair sua história — é finalmente tornar-se autora dela. Busque ajuda.
