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A Mente Invisível que Decide o Visível: Ansiedade e o Desempenho de Atletas de Elite.

A ansiedade de um campeão é frequentemente o segredo não dito das grandes competições mundiais. Quando a pressão atinge seu pico, nos momentos decisivos onde títulos são decididos e nações inteiras retêm a respiração, a capacidade de gerenciar emoções torna-se mais determinante que qualquer habilidade técnica. Este texto explora como a ansiedade afeta atletas de ponta, quais sinais revelam seu impacto silencioso e estratégias psicológicas fundamentadas em pesquisas universitárias e abordagens psicanalíticas para transformar esse estado em vantagem competitiva.

O Peso Invisível: A Realidade Psicológica da Competição de Elite

A realidade é crua: 38% dos jogadores profissionais de futebol relatam sintomas de ansiedade ou depressão, e estudos publicados no Journal of Applied Sport Psychology indicam que até 75% do desempenho em momentos decisivos depende de fatores psicológicos, não da técnica[14]. A Seleção Brasileira carrega disso uma experiência visceral. Após eliminações traumáticas para a Bélgica em 2018 e para a Croácia em 2022, a equipe enfrenta uma realidade psicológica complexa: não se trata apenas de qualidade técnica, mas de força mental para converter expectativa em motivação[10][10].

Neymar, exemplar ilustrativo dessa pressão, enfrentou críticas não apenas sobre lesões, mas também sobre seu desempenho, condicionamento e estado físico, refletindo como o psicológico permeia a narrativa pública dos atletas[2]. Este é um peso invisível que não aparece nas estatísticas, mas influencia decisões, confiança e comportamento do grupo. Nas Copas do Mundo, a pressão emocional volta a ganhar protagonismo especialmente em jogos decisivos, quando o peso da camisa se intensifica[10].

Pesquisadores da Universidade de Harvard, através de estudos de neurociência aplicada ao esporte, revelam que treinar sob pressão é fundamental para proteger o atleta. Quando um atleta simula a competição com estresse, incerteza e consequências reais durante treinos, reconhece a pressão e isso reduz significativamente a ativação da amígdala cerebral durante a competição[23]. Flávio Marreti, treinador de tênis nos EUA e estudante de neurociência em Harvard, evidencia que gerar pressão dentro do treino melhora e diminui a pressão dentro da competição—um princípio que ainda é negligenciado na maioria dos programas de treinamento[23].

Sinais, Sintomas e a Psicopatologia da Ansiedade Competitiva

A ansiedade pré-competitiva manifesta-se de formas variadas e frequentemente subestimadas. Os sinais clássicos incluem aumento de ansiedade antes de jogos ou práticas, perda de prazer no esporte, irritabilidade ou retraimento, problemas de sono ou dores de cabeça recorrentes, e medo de cometer erros ou decepcionar[5]. No contexto do futebol profissional, pesquisas da FIFPro revelam que 26% dos jogadores enfrentam distúrbios do sono regularmente e 23% relatam problemas de autoestima durante a carreira[14].

Fisiologicamente, quando uma pessoa enfrenta estresse competitivo, o corpo ativa sistemas de resposta que aumentam frequência cardíaca, contraem vasos sanguíneos e elevam pressão arterial[18]. Este mecanismo é natural em situações pontuais, mas o problema surge quando este estado se torna constante. O estresse crônico mantém o corpo em alerta permanente com liberação contínua de hormônios como cortisol e adrenalina, favorecendo aumento sustentado de pressão e sobrecarga do sistema cardiovascular[18].

Em atletas jovens, os dados são igualmente preocupantes. Pesquisas clínicas mostram que 16.9% de atletas elite juvenis experimentavam pelo menos um transtorno mental no momento da avaliação, com prevalência ao longo da vida atingindo 25.1%[3]. O treinamento excessivo afeta entre 20-30% dos atletas jovens elite, com taxas mais altas em esportes individuais e entre mulheres, apresentando sinais como fadiga crônica, irritabilidade, ansiedade e desmotivação[3][11].

De perspectiva psicanalítica, a ansiedade competitiva pode ser compreendida através do conceito winnicottiano de espaço potencial. Donald Winnicott, em seus estudos sobre desenvolvimento humano, argumentava que existe um espaço entre a realidade interna (desejos, fantasias) e a realidade externa (demandas objetivas). Na competição de elite, este espaço se colapsa: o atleta é confrontado simultaneamente com suas capacidades reais e expectativas impossíveis, gerando o que Winnicott chamaria de "falha ambiental"[17]. Este conflito não resolvido manifesta-se como ansiedade performativa.

Estratégias de Intervenção: Transformando Ansiedade em Foco

A ciência do esporte moderno oferece ferramentas concretas para transformar ansiedade em vantagem competitiva. Estratégias psicológicas como respiração profunda e visualização positiva são cruciais para manter equilíbrio emocional durante competições de alta pressão[25]. A respiração consciente, especificamente, funciona recalibrando todo o sistema nervoso—técnicas como respiração diafragmática (inspirar 4 segundos, segurar 4 segundos, expirar 6 segundos) reduzem significativamente a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal[14][23].

Intervenções baseadas em mindfulness mostram-se particularmente eficazes. Reduzem ansiedade pré-jogo em até 30%, melhoram concentração durante treinos e competições, aceleram recuperação emocional após erros, e melhoram qualidade do sono[14]. Clubes europeus como Manchester City e Bayern de Munique já integram sessões regulares de mindfulness em suas rotinas de treinamento[14]. Harvard e outras universidades de ponta reconhecem agora que atletas que praticam meditação e mindfulness mantêm maior estabilidade emocional mesmo sob pressão[25].

A visualização mental, especialmente quando inclui cenários de "pior caso", prova-se um "potencializador de performance legal e pouco conhecido"[8]. Rory McIlroy, bicampeão de Masters, regularmente pergunta a si mesmo: qual é o pior que pode acontecer, e então visualiza-se lidando efetivamente com esse cenário[8]. Este tipo de mental imagery que confronta possibilidades negativas não aumenta o medo—na verdade reduz a sensação de impotência quando o "pior" realmente ocorre.

Da perspectiva psicanalítica, essas técnicas funcionam porque permitem ao atleta integrar seus aspectos mais vulneráveis e poderosos. Melanie Klein, psicanalista que revolucionou o entendimento das relações objetais, argumentaria que a ansiedade emerge do conflito entre agressividade interna (desejo de vencer) e culpa inconsciente (medo de destruição/fracasso). Quando um atleta pratica mindfulness ou visualização do pior cenário, está simbolicamente elaborando este conflito interno, transformando-o em conhecimento integrado[29].

Técnicas de respiração e presença (estar no "agora") funcionam operacionalizando o que a neurociência chama de "redirecionamento atencional"—no lugar de deixar a mente construir narrativas autodestrutivas ("não posso errar", "vou perder de novo"), o atleta pratica trazer atenção para o que realmente pode controlar naquele momento específico[8][23]. Esta é essencialmente uma reestruturação cognitiva dinâmica que encontra paralelo com a psicanálise moderna em sua ênfase na presença e aceitação das emoções em tempo real.

O Diferencial Competitivo: Quando Teorias Se Encontram na Prática

A competitividade saudável, segundo pesquisas de John Nicholls da Universidade de Stanford, diferencia-se em dois tipos: orientação para resultado (centrada na comparação com outros, em vencer) e orientação para tarefa (voltada ao próprio desenvolvimento)[13]. Atletas orientados para tarefa apresentam maior estabilidade emocional, menor ansiedade e maior persistência a longo prazo[13]. Este descobrimento transforma completamente como programas devem ser estruturados.

A Seleção Brasileira, preparando-se para a Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, enfrenta este desafio precisamente: convertir a cobrança massiva de uma torcida que aguarda há anos um título mundial em motivação para a tarefa, não apenas em pressão para vencer resultados[10]. A preparação mental torna-se essencial para que jogadores consigam lidar com críticas, expectativas e adversidades ao longo dos confrontos decisivos.

Intervenções cognitivo-comportamentais mostram que fortalecer identidade atlética aumenta resiliência social, reduzindo ansiedade relacionada à imagem corporal em homens, embora paradoxalmente possam aumentar ansiedade de aparência social se não devidamente monitoradas[7][7]. O desafio está em fortalecer confiança sem desenvolver fragilidade emocional—um equilíbrio psicológico delicado que requer supervisão profissional contínua.

Conclusão: O Invisível Que Decide o Visível

A ansiedade em atletas de ponta não é algo a ser eliminado, mas integrado e reorientado. Pesquisadores de universidades como Harvard, Stanford, MIT e europeus confirmam unânimemente: o fator psicológico é determinante em até 75% do desempenho em momentos decisivos[14]. A Seleção Brasileira, como muitas equipes elite, compreende agora que investir em preparação mental é tão crucial quanto treino físico.

Do ponto de vista psicanalítico moderno, especialmente através de perspectivas winnicottianas sobre espaço potencial e kleinianas sobre integração de aspectos conflitivos, a ansiedade revela-se não um sintoma a eliminar, mas uma comunicação do psique sobre necessidade de integração emocional. Técnicas de respiração consciente, visualização de cenários negativos, mindfulness, reestruturação cognitiva e suporte psicológico profissional oferecem ao atleta contemporâneo ferramentas científicas e psicologicamente fundamentadas para transformar este "peso invisível" em clareza mental e desempenho superior nos momentos que mais importam.

Neste novo contexto onde a Seleção Brasileira busca redefinir seu legado competitivo e onde atletas como Neymar enfrentam escrutínio sobre múltiplas dimensões de desempenho, a verdade permanece: o jogo começa muito antes de qualquer apito soar. Começa na mente, onde campeões ou derrotas são primeiro moldados[25].


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[2] CHOSUN ILBO. Neymar enfrenta críticas sobre desempenho e condicionamento físico. Disponível em: <https://www.chosun.com/english/sports-en/2026/04/16/E5XHRJQ5AJD3ZIEC77F33MP37M/>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[3] MCCARTHY, P. Youth Sports Psychology: What Competition Actually Does to Your Child's Mental Health. Disponível em: <https://www.drpaulmccarthy.com/post/youth-sports-psychology-what-competition-actually-does-to-your-child-s-mental-health>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[5] CONNECTICUT CHILDREN'S. Growing Healthy: Youth Sports Pressure and Mental Health. Disponível em: <https://www.connecticutchildrens.org/growing-healthy/youth-sports-pressure-hurting-your-child-s-mental-health>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[7] JOURNAL OF MEN'S HEALTH. Identidade Atlética, Resiliência Social e Ansiedade de Aparência. Disponível em: <https://www.jomh.org/articles/10.22514/jomh.2025.029>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[8] PSYCHOLOGY TODAY. The Power of Negative Thinking for Athletic Performance: The Athlete's Nervous System. Disponível em: <https://www.psychologytoday.com/us/blog/the-athletes-nervous-system/202604/the-power-of-negative-thinking-for-athletic-performance>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[10] BOLA VIP. Seleção Brasileira: Pressão Psicológica em Jogos Grandes. Disponível em: <https://br.bolavip.com/selecao-brasileira/pressao-psicologica-selecao-brasileira-jogos-grandes>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[11] CADERNOS CAJUÍNA. Transtorno de Overtraining em Atletas de Elite. Disponível em: <https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/download/1708/1378/5421>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[13] PSICCOM. A Importância da Competitividade no Esporte: Orientação para Resultado vs. Tarefa. Disponível em: <https://www.psiccom.com/colunas/post/a-importancia-da-competitividade-no-esporte>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[14] FUTEBOL.WORK. Psicologia Esportiva no Futebol: Saúde Mental, Ansiedade e Desempenho. Disponível em: <https://futebol.work/psicologia-esportiva-futebol-mental/>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[17] WINNICOTT, D. W. Playing and Reality. Disponível em: <https://books.google.mw/books?id=JHMdZC08HhcC&printsec=copyright>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[18] CNN BRASIL. Saúde Mental e Pressão Alta: Como o Estresse Pode Impactar o Coração. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/saude/saude-mental-e-pressao-alta-como-o-estresse-pode-impactar-o-coracao/>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[23] YOUTUBE. Treinamento Sob Pressão e Neurociência: Redução de Ansiedade em Atletas de Elite (Flávio Marreti/Harvard). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2jgzP4rE5hU>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[25] GESTÃO DESPORTIVA. Formação de Atletas: Preparação Mental e Psicológica em Esportes de Elite. Disponível em: <https://www.gestaodesportiva.com.br/formacao-atletas.html>. Acesso em: 18 abr. 2026.

[29] G1 GLOBO. Psicanálise: O Que É e Seus Principais Autores (Instituto Especial de Conhecimento Psicanalítico). Disponível em: <https://g1.globo.com/pr/parana/especial-publicitario/instituto-especonhecimento-psicanalitico/noticia/2026/03/31/psicanalise-o-que-e-e-seus-principais-autores.ghtml>. Acesso em: 18 abr. 2026.

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Psicólogo e escritor Alexander explica o burnout: por que o esgotamento vai além do cansaço e como recuperar o equilíbrio emocional

Especialista detalha sintomas, causas e caminhos para enfrentar uma das principais síndromes ligadas ao ambiente de trabalho na atualidade

A síndrome de burnout tem se consolidado como um dos principais problemas de saúde mental da atualidade, especialmente em um cenário de alta pressão, metas constantes e cobranças no ambiente profissional. Segundo o psicólogo e escritor Alexander, o burnout não é apenas um cansaço passageiro, mas um esgotamento profundo diretamente ligado à relação do indivíduo com o trabalho.

“Trata-se de uma condição essencialmente ocupacional. O burnout está relacionado à forma como a pessoa se sente em relação ao que faz se há satisfação, identificação e segurança para exercer aquela função”, explica.

Diferente do que muitos imaginam, o problema não está necessariamente na carga horária ou no salário, mas no nível de realização pessoal e profissional. A insatisfação com as atividades, a falta de reconhecimento e até a sensação de incapacidade diante de novas responsabilidades estão entre os principais gatilhos.

“É comum que pessoas promovidas passem a apresentar sinais de burnout justamente por não se sentirem preparadas para a nova função. O crescimento na carreira nem sempre vem acompanhado de bem-estar”, destaca.

Sintomas que começam no trabalho

Entre os principais sinais estão o cansaço extremo, irritabilidade, ansiedade e, em casos mais avançados, quadros de depressão. Um ponto importante, segundo o especialista, é que os sintomas costumam estar diretamente ligados ao ambiente profissional.

“Muitas vezes, a pessoa percebe que o mal-estar surge ao iniciar a jornada de trabalho e diminui quando se afasta dele. Isso é um indicativo importante de burnout”, afirma.

Esse padrão ajuda a diferenciar a síndrome de outros transtornos emocionais, já que o esgotamento tende a estar concentrado no contexto ocupacional.

Não é sobre dinheiro

Outro mito comum é associar o burnout à remuneração. Para Alexander, essa relação não é determinante.

“Quando a insatisfação é apenas financeira, a tendência é que a pessoa busque alternativas. No burnout, o problema é mais profundo envolve propósito, reconhecimento e pertencimento”, explica.

Causas e diagnóstico

O burnout pode ter diferentes origens, mas geralmente envolve fatores como:

  • Falta de satisfação com o trabalho
  • Sensação de não estar preparado para a função
  • Ausência de reconhecimento profissional
  • Ambiente organizacional desgastante

O diagnóstico é feito a partir da escuta clínica e da análise da relação entre os sintomas e o contexto de trabalho. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o burnout como um fenômeno ligado exclusivamente ao ambiente ocupacional, o que reforça a importância de olhar para o trabalho como fator central.

Como se cuidar e evitar o agravamento

Para o especialista, o primeiro passo é a conscientização. Identificar que o sofrimento está relacionado ao trabalho permite buscar soluções mais assertivas.

“Em muitos casos, mudanças no próprio ambiente profissional já fazem diferença seja trocar de função, de setor ou até de empresa. O mais importante é não ignorar os sinais”, orienta.

Ele reforça que nem sempre é necessário tomar decisões radicais. Ajustes estratégicos podem ser suficientes para recuperar o equilíbrio e a qualidade de vida.

“O fundamental é entender que saúde mental não deve ser negligenciada. O trabalho precisa fazer sentido caso contrário, o corpo e a mente vão cobrar essa conta”, conclui. Saiba mais sobre o especialista no Instagram: @alexanderbezoficial

Alexander Bez atua como pesquisador, especialista em distúrbios emocionais e é autor de quase dez livros, publicados no Brasil e no exterior, entre romances, obras de autoajuda e estudos sobre comportamento humano. Para ele, a literatura funciona como uma extensão do cuidado psicológico, alcançando leitores de forma acessível e reflexiva.

Entre os títulos estão:

  • Inveja: o Inimigo Oculto
  • O que Era Doce Virou Amargo — considerado “a Bíblia dos Relacionamentos”
  • Trilogia Encantos da Mulher: A Magia da Beleza Feminina e A Paixão e Seus Encantos (Editora Juruá)
  • What You Don’t Know About COVID-19 – The Mortal Virus (Liferich Publishing, EUA)
  • Scientific Denialism – COVID-19 Vol. 2
  • A Seita Sexual de Puff Daddy (Diddy): Fama, Poder & Dinheiro (em produção nos Estados Unidos)
  • A Magia da Sensualidade Feminina, continuação da trilogia sobre autoestima feminina.

Sobre

Alexander Bez é formado em psicologia com especialização em Ansiedade e Síndrome do Pânico pela Universidade da Califórnia, além de especialização em Relacionamentos pela Universidade de Miami. O especialista também atua como escritor e palestrante, com foco em relacionamentos, transtornos emocionais e dinâmicas afetivas.

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Infância insegura: marcas que podem (e devem) ser trabalhadas.

Por Dr. Marcio Renzo – Psicanalista e Hipnoterapeuta

A infância insegura não é catálogo de desculpas nem sentença irrevogável — é mapa de vulnerabilidades que orientam comportamentos, escolhas e relações ao longo da vida. Na clínica psicanalítica, Freud e Jung oferecem chaves diferentes e complementares para ler essas marcas: Freud nos mostra como conflitos infantis, mecanismos de defesa e repetição compulsionante moldam o destino psíquico; Jung nos indica a atuação dos complexos, da sombra e a possibilidade de individuação. Juntos, eles lembram: o que não foi simbolizado na infância tende a reaparecer na vida adulta em formas disfuncionais, até que seja elaborado.

O que a ciência recente diz.

Estudos recentes confirmam essa perspectiva clássica com dados robustos. A neurociência contemporânea demonstra que experiências infantis organizam não apenas o psiquismo, mas o próprio funcionamento neurobiológico[3]. Pesquisas mostram que experiências adversas na infância alteram a resposta do corpo ao estresse, aumentando o risco de transtornos de ansiedade. O cortisol elevado durante o desenvolvimento cerebral pode gerar uma tendência crônica à ansiedade e ao estado de alerta permanente[1], criando adultos que carregam fardos emocionais pesados e invisíveis.

Os padrões mais comuns.

Parentalização e responsabilidades precoces: Quando crianças são forçadas a desempenhar papéis de cuidadores antes do tempo biológico adequado, desenvolvem um senso de responsabilidade hipertrofiado[1]. Adultos que cuidaram de irmãos ou pais durante a infância frequentemente sentem que o mundo depende exclusivamente de seus esforços. Essa dedicação extrema resulta em exaustão física e mental que o indivíduo ignora por hábito antigo[1]. O prazer pessoal é deixado de lado em favor das necessidades alheias, gerando uma frustração silenciosa, mas muito potente.

Necessidade constante de validação: A carência de suporte afetivo durante as fases críticas do desenvolvimento deixa marcas profundas na forma como o indivíduo percebe o próprio valor[2]. Filhos de pais ausentes emocionalmente crescem em um ambiente de incerteza afetiva, onde suas conquistas e dores são frequentemente ignoradas ou minimizadas. Esse vácuo de atenção gera a crença de que o amor é condicional, conquistado apenas por um desempenho impecável[2].

Na vida adulta, a busca por validação constante aparece em parceiros, amigos e chefes, como tentativa de preencher um reservatório que nunca foi abastecido na infância[2]. No cenário profissional, essa dinâmica transforma estudantes e trabalhadores em high achievers, mas a um custo emocional altíssimo.

Medo excessivo de errar: Crianças constantemente criticadas pelos pais geralmente desenvolvem medo excessivo de errar na vida adulta. Essa autocrítica severa acompanha o indivíduo, criando uma voz interna que cobra perfeccionismo defensivo e pune qualquer tentativa de relaxar.

Sinais visíveis da infância insegura.

Identificar os padrões de comportamento herdados de uma infância sobrecarregada permite que o indivíduo inicie um processo de cura[1]. Muitas dessas características são vistas pela sociedade como qualidades admiráveis, mas escondem sofrimento psicológico latente:

  • Hipervigilância e dificuldade em relaxar: para quem pulou etapas do desenvolvimento, o ócio é interpretado como perda de tempo perigosa[1]. Relaxar significa baixar a guarda, despertando medo irracional de que algo terrível aconteça[1].
  • Dificuldade em aceitar favores e hiperindependência: surge como escudo para evitar depender de pessoas que podem falhar ou desaparecer[1]. Muitos preferem carregar todo o peso sem pedir colaboração.
  • Dificuldade em lidar com críticas: mesmo críticas construtivas desencadeiam respostas defensivas[2].
  • Tendência a se desculpar excessivamente: por falhas triviais ou até inexistentes[2].
  • Sentimento de invisibilidade: quando não recebe atenção imediata em grupos[2].
  • Foco excessivo na produtividade: incompatível com a capacidade de descanso[1].

Como a psicanálise propõe trabalhar essas experiências.

A transformação clínica passa por mais do que recordar: exige elaboração genuína. Procedimentos centrais incluem:

  • Estabelecer um vínculo seguro: criar uma aliança terapêutica estável para permitir a emergência de conteúdos vulneráveis;
  • Livre associação e interpretação: permitir que lembranças, sonhos e atos falhos sejam trazidos à luz e elaborados;
  • Uso da transferência/contratransferência: como campo para vivenciar e reparar padrões de vinculação;
  • Identificação e flexibilização de defesas: negação, projeção, acting out;
  • Técnicas junguianas (imaginação ativa, amplificação): para integrar imagens, símbolos e a sombra;
  • Psicoeducação e ressignificação narrativa: reconstruir a história pessoal com coerência;
  • Contenção e estabilização: antes de trabalhar traumas complexos;
  • "Reparentagem": o adulto aprende a fornecer a si mesmo o acolhimento que faltou[2].

Profissionais que trabalham com abordagem psicanalítica reconhecem a singularidade de cada história e o valor de colocar em palavras aquilo que, muitas vezes, permaneceu silenciado[1]. A escuta clínica atenta busca oferecer um espaço de construção de sentido — um tempo para olhar com mais cuidado para si, reconhecer repetições, elaborar dores e criar novas possibilidades de existir[1].

Fortalecer a comunicação interna e reconhecer os próprios méritos sem a necessidade de aplausos é um exercício diário de reconstrução da identidade[2].

Por que isso importa

Marcas não elaboradas limitam criatividade, autonomia e potencial profissional; fragilizam laços e perpetuam padrões intergeracionais. A hiperindependência que surge como estratégia de sobrevivência impede a formação de vínculos profundos, pois a vulnerabilidade é interpretada como risco inaceitável[1]. Quebrar essa barreira exige vulnerabilidade e aceitação de que conexões humanas saudáveis exigem trocas e apoio mútuo constante[1].

Investir em clínica, educação parental e políticas públicas de proteção à infância é, portanto, investimento em saúde social.

Uma questão pessoal.

A infância insegura não deve ser romantizada nem ignorada. Precisamos de uma cultura que reconheça a profundidade dessas marcas e ofereça caminhos reais de elaboração. Ao aceitar que a ausência dos pais foi uma falha deles, e não um reflexo da sua insuficiência, o indivíduo libera espaço mental para construir conexões baseadas na reciprocidade real[2].

A psicanálise, ao combinar interpretação, vínculo reparador e integração simbólica, propõe um processo que transforma máculas em possibilidades de escolha. Priorizar seu equilíbrio mental é fundamental para transformar essas marcas do passado em uma força construtiva e consciente hoje[1].

No fim, a verdadeira liberdade surge quando o reconhecimento mais importante vem de dentro, permitindo que a pessoa brilhe por quem ela é, e não pelo que ela faz para agradar o mundo.


Referências Bibliográficas

Freud, S. (1923). O Ego e o Id. Edição Padrão Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud.

Freud, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Companhia das Letras.

Jung, C. G. (1959). A Prática da Psicanálise. Editora Vozes.

Jung, C. G. (1981). Estrutura e dinâmica da psique. Petrópolis: Vozes.

Winnicott, D. W. (1990). Natureza Humana. Imago Editora.

Lacan, J. (1978). O Seminário: livro 2 - O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise. Jorge Zahar Editor.

Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss: Volume 1 - Attachment. Basic Books.

Correio Braziliense (2024). "Segundo a psicologia, pessoas que cresceram assumindo responsabilidades cedo demais frequentemente desenvolvem estes traços na vida adulta". Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/

Correio Braziliense (2024). "Crianças que cresceram sendo constantemente criticadas pelos pais geralmente desenvolvem medo excessivo de errar na vida adulta". Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/

UAI Notícias (2026). "A psicologia afirma que a necessidade constante de validação na vida adulta pode ser um reflexo direto da falta de suporte emocional na infância". Disponível em: https://www.uai.com.br/

Rieger, P. F. (2026). "A neurociência hoje mostra que essas experiências organizam não só o psiquismo, mas o próprio funcionamento do...". Instagram, 19 de março de 2026. Disponível em: https://secure.instagram.com/poliene_fsn_rieger/

Evolution Saúde Mental (2026). "Psicólogos(a) especialistas em: terapia-individual". Disponível em: https://evolutionsaudemental.com/

Psi Consultório (2026). "Psicoterapia online em Psicanálise - Freud". Disponível em: https://psiconsultorio.com.br/

HIPNOSE

HIPNOSE – MITO OU FERRAMENTA?

A hipnose é um estado alterado de consciência em que é possível acessar o subconsciente onde estão armazenadas nossas lembranças, traumas, medos, sentimentos etc., que não é possível acessar de forma consciente.

Mas para isso, precisamos desmistificar a hipnose de como ela vem sendo representada em produções cinematográficas. Ela sempre foi mostrada como uma forma de controle do hipnotista sobre o hipnotizado. Mas na realidade não é isto que acontece.

O estado de hipnose acontece em nosso dia-a-dia e não percebemos. Quando assistimos a um filme, seja de terror, drama, comédia e nos deixamos levar pelas emoções (sugestionamento), pois sabemos que aquela situação não é real, porém aceitamos a condição e reagimos a ela. Isso é um estado de hipnose, pois somos levados a reagir a uma emoção que conscientemente sabemos que não é real, através do sugestionamento.

Aos que pensam que a hipnose é algo novo, lamento discordar, pois trata-se de um conceito milenar, porém foi no ano de 1843 que foi usada pela primeira vez com intuito de tratamento por James Braid, que nomeou também esta técnica, do grego hypnos (sono), por acreditar no estreitamento da consciência, chegando próximo ao que nos encontramos quando estamos no estado do sono. Sendo o pai da hipnose clássica.

Posteriormente, o americano Milton Hyland Erickson com seus estudos e experimentos em clínica, veio a criar a segunda escola em hipnose, a ericksoniana.

A hipnoterapia, método que tem por base a utilização da hipnosea dentro da psicoterapia, para a busca e tratamento de conflitos pelos quais os pacientes estão passando e por meio desta técnica promover a melhora do quadro mental. Sim, a hipnose é uma técnica, portanto, uma ciência e não uma mágica ou feitiço como foi tão explorado no cinema.

Recentemente, dentro da psicoterapia tem-se abordado os aspectos da terapia cognitiva-comportamental com as da hipnose clínica para tratamento de psicopatologias, de forma integrativa.

Cabe salientar que a hipnoterapia é reconhecida como prática pelos conselhos de Medicina, Psicologia e Fisioterapia. Em 2018 foi reconhecida pelo Ministério da Saúde e acrescentada à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) e autorizado seu uso no Sistema Único de Saúde (SUS).

O Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), desde 2017 e a pandemia só fez agravar este quadro. Segundo ainda a USP (Universidade de São Paulo), 63% dos brasileiros apresentam algum quadro ansioso e 57% estão depressivos.

Outro dado alarmante vem do DATASUS (Departamento de Informática do Sistema único de Saúde), segundo o órgão nos últimos 20 anos o número de suicídios dobrou, passando de 7 mil para 14 mil eventos, praticamente uma pessoa comete suicídio a cada hora. Este número é maior do que o número de mortos em acidentes de moto, no mesmo período.

Arquivo pessoal

Como vimos, a pandemia causou um verdadeiro “boom” nos casos de transtornos mentais relacionados à depressão e ansiedade. No mundo o aumento dos casos de ansiedade foi da ordem 25,6% e os de depressão 27,6% em 2020.

Como a hipnose pode ajudar?

Utilizamos a hipnose para tentar compreender o início do problema, detectar suas causas, desdobramentos, reafirmações de situações para que quando o paciente se depare com “estes gatilhos” reajam de forma adequada, não caindo novamente no comportamento depressivo ou ansioso.

A hipnose também proporciona a liberação de “bloqueios”. Quando passamos por uma situação traumática, como defesa, colocamos essas situações em “caixas escondidas” em nosso cérebro para que não soframos com elas. Durante o estado de hipnose conseguimos acessar estas caixas e ressignificar essas emoções, de forma que o paciente não sofra mais ao acessar essas memórias.

Além dessa ressignificação das emoções, durante a sessão de terapia, o hipnoterapeuta coloca o que chamamos de “âncoras”, para que quando o paciente venha a se deparar novamente com tal situação, ele sinta um apoio, um renovo na sugestão, de forma que mantenha por mais tempo os efeitos terapêuticos.

É importante deixarmos claro que, durante a hipnose, o paciente tem o total controle de suas emoções e vontades. Ele não fará nada que não queira. Como diria meu tutor: “somos apenas um GPS para guiar os pacientes dentro de suas emoções”. O paciente não revelará nenhum segredo ou fará algo que não deseja, pois o paciente permanece consciente por toda a sessão.

Em que mais a hipnose pode ser usada?

Hoje, a hipnose é utilizada com grande eficácia para tratar diversos outros problemas, além de quadros ansiosos e depressivos, tais como: fibromialgia, transtornos dismórficos corporais (Anorexia, bulimia, etc..), vícios; além de poder ajudar na melhoria de desempenhos profissionais, como: medo de falar em público, falta de confiança, etc..

Procure um profissional qualificado e venha conhecer os benefícios desta técnica.