Terapia Pulpar Vital: uma alternativa moderna ao tratamento de canal
Por: Dra Rafaella Ronchi Zienlli
Cada dente é uma estrutura biológica complexa, composta por tecidos especializados que desempenham funções específicas. Um desses tecidos é a polpa dentária, um tecido conjuntivo altamente vascularizado e inervado, rico em células como os odontoblastos, células de defesa e fibras nervosas. Popularmente conhecida como o “coração do dente”, a polpa é responsável pela manutenção da vitalidade dentária e pela capacidade de resposta frente a diferentes estímulos.
Quando sentimos dor em um dente, isso geralmente indica que alguma alteração fisiológica ou inflamatória está ocorrendo nesse tecido. No entanto, nem toda sensação dolorosa está necessariamente associada a um processo inflamatório. Em determinadas situações, variações bruscas de temperatura, como a ingestão de alimentos ou bebidas muito quentes ou frios, podem desencadear uma resposta dolorosa transitória. Isso ocorre porque os receptores pulpares respondem às alterações térmicas por meio de mecanismos neurofisiológicos que são interpretados pelo organismo como dor.
Diversos fatores podem levar à inflamação da polpa dentária, entre eles a cárie, os traumatismos dentários, as trincas, as fraturas coronárias e os procedimentos restauradores extensos. Em muitos casos, esses estímulos provocam uma inflamação de baixa intensidade e potencialmente reversível. Quando a causa é removida e o tecido mantém sua capacidade de reparo, a polpa pode retornar ao estado de normalidade. Nessas situações, a dor costuma ser provocada por estímulos específicos, como frio, calor ou mastigação, cessando após a remoção do agente desencadeante.
Por outro lado, quando a agressão é mais intensa ou prolongada, o processo inflamatório pode evoluir para estágios mais avançados, manifestando-se clinicamente por dores espontâneas, pulsáteis e persistentes. Tradicionalmente, quadros dessa natureza eram considerados indicações inevitáveis para o tratamento endodôntico, popularmente conhecido como tratamento de canal.
Entretanto, os avanços científicos ocorridos nas últimas décadas têm ampliado as possibilidades terapêuticas para a preservação da vitalidade pulpar. Nesse contexto, destaca-se a Terapia Pulpar Vital, uma abordagem biológica e minimamente invasiva que busca manter a porção saudável da polpa, preservando suas funções fisiológicas e a longevidade do elemento dental.
Embora não seja uma modalidade de tratamento recente, a Terapia Pulpar Vital era historicamente mais empregada em pacientes jovens. Atualmente, o desenvolvimento de materiais bioativos e o fortalecimento das evidências científicas têm permitido a ampliação de suas indicações também para pacientes adultos e idosos.
O tratamento consiste na remoção seletiva do tecido pulpar comprometido, seguida da proteção da polpa remanescente com biomateriais à base de silicato de cálcio. Esses materiais apresentam elevada biocompatibilidade e capacidade de liberação iônica, favorecendo a formação de um ambiente propício ao reparo tecidual e à deposição de tecido mineralizado.
Para o sucesso do tratamento, é fundamental a correta seleção dos casos, a execução criteriosa da técnica sob isolamento absoluto e a realização de uma restauração definitiva que proporcione adequado selamento coronário. Quando esses princípios são respeitados, estudos clínicos têm demonstrado índices de sucesso próximos a 90%.
Dessa forma, a presença de dor dentária não deve ser automaticamente associada à necessidade de tratamento endodôntico. O diagnóstico preciso, aliado ao conhecimento das alternativas terapêuticas disponíveis, permite a adoção de condutas cada vez mais conservadoras e biologicamente orientadas. Por isso, a avaliação por um profissional capacitado é essencial para determinar a melhor opção de tratamento para cada situação clínica.
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