CASACOR Bahia aposta na sustentabilidade com primeiro ambiente carbono neutro e relatório ESG inédito

Porta-em-plastico-reciclado-rgb

A 32ª edição da CASACOR Bahia, em cartaz até 6 de setembro na Casa Nossa Senhora das Mercês, em Salvador, marca uma virada na relação da mostra com a sustentabilidade. Pela primeira vez em sua história, o evento realiza um inventário de emissões baseado na metodologia GHG Protocol e elabora um relatório ESG, resultado da parceria com a The Planet, consultoria especializada em governança climática fundada por Gilda Gomes, Climate Leader pelo The Climate Reality Project.

A parceria inclui ainda o desenvolvimento do Manual dos Arquitetos, guia que propõe reflexões sobre o papel da arquitetura diante da emergência climática, do Manual de Governança ESG da edição e do Inventário de Gases de Efeito Estufa do Master Plan da mostra. A iniciativa contempla também ações de formação voltadas para arquitetos, fornecedores e equipes. “A sustentabilidade nesta edição deixou de ser um gesto pontual para se tornar um compromisso de gestão. Pela primeira vez vamos medir as emissões da mostra e publicar um relatório ESG, e isso muda a conversa com arquitetos, fornecedores e patrocinadores. O visitante percebe o resultado nos ambientes, mas a transformação começa nos bastidores”, afirma Magali Sant’Ana, diretora da CASACOR Bahia.

O primeiro ambiente carbono neutro

A materialização mais visível dessa agenda está no Living Dois Jeitos, Um Querer, do escritório Andrade Schimmelpfeng, primeiro ambiente carbono neutro da história da CASACOR Bahia. A neutralidade foi alcançada por meio do Carbon Track M2, tecnologia exclusiva desenvolvida pelo escritório em parceria com a The Planet, capaz de mensurar as emissões do projeto e orientar as estratégias de compensação, feita pela aquisição de créditos de carbono. O ambiente incorpora ainda práticas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Andrade-Schimmelpfeng –Bancada Verde de Vidro e Mármore

As escolhas são concretas e visíveis ao visitante. A porta principal foi desenvolvida em parceria com a Plasticaria, a partir de plástico reciclado pós-consumo. A bancada verde foi criada exclusivamente para o espaço com uma composição que incorpora cimento e materiais reaproveitados, como fragmentos de garrafas de vidro, blocos e resíduos de mármore. A parede que divide o ambiente recebeu revestimento da Castelatto, produzido com agregados de louças sanitárias trituradas incorporados ao concreto. O guarda-corpo e as prateleiras vieram de sucata metálica reaproveitada, o deck é de pinus de reflorestamento e a fonte das mil colheres opera com a água da condensação do ar-condicionado, direcionada a um reservatório e reutilizada tanto na fonte quanto na irrigação das plantas.

O ambiente conta ainda com um aplicativo que monitora em tempo real os principais indicadores de sustentabilidade do projeto ao longo de toda a mostra: volume de água reaproveitada e destinada ao jardim, economia de energia, redução de emissões proporcionada pelos materiais e pegada de carbono da obra. Tudo isso é coerente com a trajetória do escritório, certificado como Empresa B, selo internacional concedido a organizações que comprovam em auditoria altos padrões de desempenho socioambiental, transparência e responsabilidade.

Resíduo com design assinado

A edição ajuda a desfazer um estereótipo persistente: o de que materiais reciclados ou de reuso resultam em estética precária, associada à improvisação. A Plasticaria, que produz placas a partir de plástico pós-consumo, assina peças em diferentes espaços. No Abraço, do Studio Cady para a Manolo Wellness, os tampos das mesas são de material reciclável da empresa, que produziu ainda uma mesa de apoio com design autoral do arquiteto Felipe Cady. No loft A Rotina do Agora, de Nath Veloso, um móvel foi produzido com 30 quilos de placas de plástico reciclado, o que corresponde ao indicador PP+ de seis meses, medida de Peso Plástico Positivo adotada pela empresa e fundamentada em pesquisa da Blue Keepers, segundo a qual cada pessoa gera cerca de 64 quilos de plástico por ano, dos quais aproximadamente 16 quilos acabam nos oceanos. O móvel equivale, portanto, a seis meses desse impacto compensado.

Nath Veloso – A rotina do agora

Na Cozinha e Jantar, de Hugo Ribeiro, o pendente sobre a mesa de jantar foi desenvolvido exclusivamente para o ambiente em parceria com o Studio L, a partir de sobras de couro reaproveitadas de processos produtivos. Material de descarte aparece incorporado a projetos autorais, com acabamento e intenção, lado a lado com madeiras nobres, mármores e mobiliário assinado. A origem sustentável não define o resultado visual, e sofisticação e responsabilidade ambiental deixaram de ser escolhas opostas.

Da sinalização ao concurso de ecodesign

O compromisso se estende à operação da mostra. Toda a sinalização da edição foi produzida em Ecobord, material totalmente reciclável composto de papelão com impressão em tinta à base d’água, trazido pela Blue Artes, empresa de sinalização de Salvador que detém os direitos do material na Bahia e faz seu lançamento na mostra. O Ecobord esteve presente este ano na sinalização do Salone del Mobile, em Milão, principal evento de design do mundo.

A mostra também sedia o Prêmio Plasticaria de Ecodesign Circular 2026, realizado pela Plasticaria em parceria com a CASACOR Bahia e a Secretaria de Sustentabilidade, Resiliência e Bem-Estar e Proteção Animal de Salvador (SECIS), com apoio institucional de organizações como a Embaixada da França no Brasil e a cátedra UNESCO de sustentabilidade da Universitat Politècnica de Catalunya. O prêmio convida arquitetos, estudantes, designers e criativos em geral, mesmo sem experiência, a desenvolver projetos autorais que transformem plástico reciclado em arquitetura, design e inovação. As categorias partem de volumes concretos de resíduo, como uma saboneteira produzida com um mês de descarte plástico ou um banquinho com o equivalente a um ano. Uma delas é exclusiva para o elenco de arquitetos da CASACOR Bahia. Os vencedores serão anunciados em 31 de agosto, junto à premiação da mostra, e os protótipos ficarão expostos ao público na última semana do evento.

Preservar o que já existe

O olhar ambiental atravessa a mostra em diferentes escalas, começando pela decisão de ocupar um patrimônio histórico existente. No Espaço de Convivência, da +55 Design com Marlon Gama Arquitetura, o escritório optou por aproveitar ao máximo a estrutura existente, com intervenção pontual e menor impacto possível de obra, argumento que ganha peso diante do dado de que o Brasil gera cerca de 106,3 milhões de toneladas de resíduos da construção civil por ano, segundo pesquisa setorial da ABRECON de 2025. Toda a produção do ambiente foi concentrada em um raio de 3 quilômetros da mostra, o que reduziu deslocamentos e pegada de carbono, e as madeiras dos móveis da marca têm certificação FSC.

Carol Barreto -Corda de sisal e fibras naturais

Vários projetos preservaram elementos originais do casarão. No Lounge Escarlate, de Anete Bacelar, Celeste Leão e Pedro Mahcario, a iluminação cênica destaca o piso original restaurado. Na Casa Bem Vivida Electrolux, Wesley Lemos manteve o assoalho original. No Nero & Bianco, Rodrigo Cassieri preservou marcenaria, teto e piso de madeira existentes e concebeu o espaço para aproveitar a ventilação cruzada natural, dispensando o ar-condicionado. No Lounge Entre Camadas, de Dayse Pellegrini e Michele Wharton, o piso original foi mantido com as marcas do tempo e o bambuzal veio de outro espaço, um café no Corredor da Vitória, replantado no ambiente. No restaurante Travessia, A Taberna, Carol Barreto preservou o piso e as paredes com marcas do tempo. No restaurante Soho, Paula Risério e Marco Reis mantiveram os tijolos aparentes da construção original, recurso que também aparece na cozinha do Loft Desígnio, de Neto Cunha. No loft CasaCura-Qualivida, Milena Saraiva manteve a estrutura original da edificação, a parede secular em blocos aparentes e o teto em assoalho com estrutura original em madeira.

Milena Saraiva – Parede secular em blocos aparentes

Dois projetos foram além e trataram a reversibilidade como método. Na Casa Vitalina, da BD Interiores, Bruna Dória encontrou no depósito do Casarão das Mercês uma estante de madeira que pertencia à escola, recuperou a peça e lhe deu nova identidade com tinta acrílica à base de água, sem solventes, preservando a madeira para reaproveitamento futuro. O piso vinílico clicado foi instalado sobre o ladrilho existente sem cola, de modo que possa ser removido e reutilizado ao fim da mostra enquanto o ladrilho volta à leitura original do ambiente, e o balcão em pedra natural foi assentado sem colagem, permitindo desmontagem. O ambiente foi concebido e executado em 40 dias. No LABIV, da Escola de Belas Artes da UFBA, também coordenado por Bruna Dória, as estantes foram desenhadas em sistema modular de quatro módulos independentes e o mezanino, projetado em parceria com Felipe Cotrim e executado em eucalipto de reflorestamento, usa encaixes como principal método construtivo, sem colas permanentes, para ser desmontado e reaproveitado integralmente.

Materiais naturais, renováveis e de baixo impacto

Na Varanda Raízes iGUi, Dinah Lins reuniu biriba de eucalipto, deck em cumaru, aproveitamento do piso existente, manutenção do teto em assoalho, iluminação em LED, tintas à base de água e paredes em drywall, sistema que reduz geração de resíduos. Wesley Lemos assina a poltrona WURA, primeira criação do arquiteto para o uso do corpo, feita em trançado de junco pela técnica vernacular, com estrutura em aço carbono e revestimento em veludo de algodão. A peça é apresentada em três tamanhos, para atender diferentes estaturas. No Travessia, A Taberna, Carol Barreto trabalhou com corda de sisal, fibras naturais, cerâmica, tintas à base de água com baixa emissão de compostos orgânicos voláteis, iluminação em LED e equipamentos de alta eficiência, além do mobiliário Breton, de empresa que compensa mais emissões de CO2 do que gera em sua operação.

Dinah Lins- Biriba de eucalipto e deck em cumaru

No CasaCura-Qualivida, Milena Saraiva partiu da neuroarquitetura e da biofilia para uma curadoria em que cada material cumpre função: cobre pelas propriedades antimicrobianas, linho, mármore Bege Bahia pela estabilidade térmica e argila como reguladora natural de umidade, tudo com prioridade para design e produção de Salvador e região, o que reduz a pegada logística. No banheiro Mãe Terra, de Bia Nery, Flacy Andrade e Michelle Araújo, argila, pedra e madeira constroem a materialidade. A Minha Garagem, dos NN Arquitetos, integra água e vegetação em uma proposta sustentável, e o Jardim de Oração, de Daiane Reis, tem como elemento central um lago ornamental com sistema biológico, que dispensa tratamento químico convencional.

Arte que nasce do descarte

A pauta atravessa também as obras expostas. No Águas que Acalmam, ambiente de Gabriel Magalhães, o artista Mateus Morbeck apresenta Meia Água, série de monotipias criadas pela imersão de papel aquarelável, realizada in loco, nas manchas do derramamento de óleo que atingiu o mar do Nordeste brasileiro. O resultado é óleo sobre papel em sentido literal: as paredes cobertas pela obra registram o espalhamento lento do material no mar, com relevos formados pelo óleo acumulado e as marcas deixadas no instante em que cada papel foi retirado da água. Um manifesto contra a destruição, que converte o vestígio de um desastre ambiental em obra de arte.

Gabriel Magalhaes – Meia Agua Mateus Morbeck

Na Adega Latência, da Sense2 Arquitetura, de Tays Mota e Sílvia Lectícia, as obras Entre Veias e Taninos, de Syene Brito, e Entre Safras, de Roberta Tagliapietra, usam fibra proveniente de pneus reciclados. O espaço abriga ainda a escultura Coração, de Juliana Maria, para a Rizoma, produzida a partir de uma lata de lixo de ferro descartada, e uma instalação interativa na saída em que os visitantes assinam a experiência depositando rolhas de vinho usadas em um recipiente. No Loft Desígnio, de Neto Cunha, a escultura O Propósito, atirantada com cabos de aço sobre a cama, foi produzida em ecoboard, material 100% reciclado e reciclável, com 247 camadas interligadas por cola hotmelt, modelada em impressora 3D e executada pela Blue Arts.

Sense2 – Adega Latencia – Entre Safras Roberta Tagliapietra

Os troféus da edição seguem caminho semelhante. Assinados pela artista plástica e designer Luciana Bittencourt, foram desenvolvidos a partir de raízes recolhidas na Chapada Diamantina, muitas provenientes de áreas atingidas por incêndios ou desmatamentos. Fragmentos que poderiam representar destruição ganham nova existência através da arte.