Sustentabilidade em eventos começa muito antes da montagem

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Falar sobre sustentabilidade no universo do live marketing não é simples. Afinal, trabalhamos em um setor que constrói estruturas robustas para permanecerem montadas durante poucos dias. Um estande pode levar uma semana para ser produzido, alguns dias para ser montado e, muitas vezes, permanecer em funcionamento apenas três ou quatro dias antes de ser desmontado.

Nesse processo, utilizamos madeira, estruturas metálicas, vidro, tecidos, revestimentos, lonas, materiais elétricos e diversos outros componentes. É inevitável que exista geração de resíduos. Por isso, reduzir a discussão sobre sustentabilidade apenas ao descarte correto dos materiais seria simplificar um desafio muito mais complexo.

Durante muito tempo, acreditamos que a sustentabilidade deveria ser buscada principalmente nas etapas de produção, montagem e desmontagem. Era ali que concentrávamos nossos esforços para reduzir desperdícios e encontrar soluções mais eficientes. Mas com o passar dos anos, percebemos que estávamos olhando para o momento errado.

Hoje entendemos que a sustentabilidade começa muito antes de qualquer chapa de MDF ser cortada ou qualquer estrutura metálica ser soldada. Ela nasce no primeiro traço do projeto. É durante a criação que são tomadas as decisões que determinarão quanto material será utilizado, quanto poderá ser reaproveitado, qual será a eficiência logística da operação e qual será o volume de resíduos gerados ao final do evento.

Quando um projeto é desenvolvido considerando modulações inteligentes, medidas padronizadas e sistemas construtivos reutilizáveis, todo o restante do processo se torna mais eficiente. Na prática, isso significa pensar cada parede, cada piso, cada estrutura metálica e cada elemento cenográfico para que possam ser utilizados novamente em outros projetos.

Uma chapa de MDF, por exemplo, possui dimensões específicas. Quando o projeto respeita essas medidas, reduzimos significativamente as perdas decorrentes dos cortes. O mesmo acontece com estruturas metálicas modulares, que podem ser ampliadas ou reduzidas conforme o tamanho de cada estande, sem que seja necessário fabricar tudo novamente a cada evento.

O vidro é outro bom exemplo. Embora exija um cuidado muito maior no transporte, armazenamento e desmontagem, trata-se de um material com alto potencial de reaproveitamento quando existe planejamento para isso. Essa lógica também se aplica a balcões, bancadas, mobiliários, perfis de alumínio e diversos componentes estruturais que podem ganhar novas funções em projetos futuros.

Mas é claro que nem tudo pode ser reaproveitado. Alguns revestimentos, lonas impressas e elementos decorativos possuem vida útil limitada ou são personalizados para uma marca específica. Da mesma forma, a velocidade exigida nas desmontagens acaba impondo desafios importantes. Não é raro termos quatro ou cinco dias para montar um estande e apenas uma madrugada para desmontá-lo completamente.

Esse ritmo intenso aumenta o risco de danos aos materiais e dificulta o reaproveitamento de alguns componentes. Mesmo assim, ainda existe muito espaço para reduzir desperdícios quando o projeto é pensado de forma inteligente.

Além do reaproveitamento de estruturas, também buscamos selecionar matérias-primas mais adequadas desde o início. Priorizamos madeira certificada, tintas menos agressivas ao meio ambiente e materiais que possam ser reutilizados de diferentes formas ao longo da operação. Muitas vezes, um tecido ou revestimento que não poderá ser utilizado em outro estande continua tendo utilidade dentro da própria fábrica, protegendo equipamentos, acomodando materiais ou apoiando novas montagens.

Aquilo que realmente chega ao fim do seu ciclo de uso também precisa receber a destinação correta. No setor de eventos, ainda existe a percepção de que tudo aquilo que sobra simplesmente vai para uma caçamba. Na prática, esse cuidado também faz parte da responsabilidade das empresas. Trabalhar com parceiros especializados na coleta e destinação desses resíduos, garantindo que cada material siga para reciclagem ou para o tratamento ambientalmente adequado sempre que possível é essencial.

Existe ainda um aspecto pouco discutido quando falamos sobre sustentabilidade: a eficiência também é uma forma de responsabilidade ambiental. Quanto menor o desperdício de matéria-prima, menor a necessidade de produzir novos materiais. Quanto mais estruturas são reaproveitadas, menor é o consumo de recursos naturais. Quanto melhor é o planejamento logístico, menores tendem a ser os custos operacionais e os impactos associados ao transporte e à produção.

Sustentabilidade e eficiência caminham lado a lado. E essa mudança de mentalidade também acompanha uma transformação no próprio mercado. Empresas contratantes, organizadores de feiras e consumidores estão cada vez mais atentos às práticas adotadas por seus parceiros. Hoje, não basta entregar um projeto bonito ou tecnologicamente impressionante. Espera-se que ele também seja concebido com inteligência, responsabilidade e visão de longo prazo.

Isso não significa que o setor de eventos deixará de gerar impactos. Seria pouco realista afirmar isso. Mas significa reconhecer que existem inúmeras decisões capazes de reduzir esses impactos antes mesmo do início da construção.

Nesse setor, aprendemos que sustentabilidade não é um acabamento aplicado ao projeto nem uma etapa adicionada ao final do processo. Ela faz parte da própria concepção do trabalho. Precisamos projetar experiências considerando criatividade, eficiência construtiva, reaproveitamento de materiais, inteligência logística e responsabilidade ambiental desde o primeiro traço.

Porque grandes eventos inevitavelmente geram impacto. A diferença está em decidir, desde o início, qual será esse impacto.

Por: André Vaz, diretor da Punch Live