Ecoansiedade: quando o medo do futuro começa a ocupar o presente.
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A crise ambiental não está apenas transformando o planeta. Ela também está transformando a maneira como as pessoas percebem o futuro, a segurança e a própria existência.
O que acontece com a mente de alguém que passa por uma tragédia ambiental? Estamos em plena influência do Super El-Niño e como isso poderá nos afetar?
Existe uma diferença entre ter medo de uma tempestade e viver com a sensação de que a próxima tempestade poderá destruir tudo aquilo que conhecemos. Existe diferença entre acompanhar uma notícia sobre uma enchente e olhar para as imagens de uma cidade devastada pensando: “Isso poderia acontecer comigo”.
É justamente nessa fronteira entre a realidade e aquilo que imaginamos que começa a surgir uma questão cada vez mais presente: a ecoansiedade.
As mudanças climáticas deixaram de representar apenas uma preocupação distante, discutida em conferências ou apresentada em gráficos. Elas passaram a fazer parte do cotidiano. Estão nas enchentes, nas queimadas, nas ondas de calor, nas secas, na perda de áreas verdes e nas imagens de pessoas que, de uma hora para outra, perderam suas casas e suas referências.
E quando uma ameaça deixa de ser abstrata e passa a fazer parte da nossa experiência, inevitavelmente ela também chega à nossa mente.
Quando o desastre ambiental também se transforma em sofrimento psíquico
Quem já passou por um desastre ambiental sabe que a destruição não termina quando a água baixa ou quando o fogo é controlado. Todos os anos quando chegam a época das chuvas, cidades onde suas áreas cresceram de forma desordenada entram em alerta. Depois do acontecimento, ficam as perdas, as lembranças, o medo de que tudo aconteça novamente e a dificuldade de recuperar aquela sensação de segurança que existia antes.
Uma casa pode ser reconstruída. Um objeto pode ser substituído. Uma rua pode ser recuperada. Entretanto, a sensação de segurança pode levar muito mais tempo para voltar.
É por isso que pessoas expostas a eventos climáticos extremos podem apresentar ansiedade, alterações do sono, irritabilidade, medo, estresse e sintomas relacionados ao trauma. Mesmo aquelas que não vivenciaram diretamente uma catástrofe podem desenvolver preocupação persistente diante da possibilidade de que ela aconteça.
Nesse sentido, a ecoansiedade não deve ser compreendida simplesmente como uma nova doença. A preocupação com aquilo que está acontecendo com o planeta pode ser absolutamente legítima. O problema começa quando essa preocupação deixa de ser uma percepção da realidade e passa a dominar a realidade psíquica do indivíduo.
Afinal, o que estamos temendo?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes. Quando alguém diz que tem medo das mudanças climáticas, nem sempre está falando somente sobre o clima. Pode estar falando do medo de perder a própria casa. Pode estar falando dos filhos. Pode estar falando da possibilidade de não ter um futuro seguro, ou estar falando da perda de um lugar que representa sua infância, sua família ou sua história.
Em outras palavras, muitas vezes não temos medo apenas daquilo que pode acontecer com o planeta. Temos medo daquilo que poderá acontecer conosco.
E essa diferença é fundamental para compreender o sofrimento.
Uma árvore pode ser cortada e substituída. Mas, para uma pessoa, perder a paisagem onde cresceu pode significar perder uma parte da própria história. Por isso, quando falamos em crise ambiental, também precisamos falar em luto.
Existe um luto pelas espécies que desaparecem, pelas paisagens que se modificam, pelos lugares que deixam de existir como eram e por uma determinada maneira de viver que talvez não volte.
Freud e o mal-estar diante de um mundo que impõe limites.
A psicanálise pode nos ajudar a olhar para esse fenômeno por outro ângulo.
Freud, ao discutir o mal-estar na civilização, mostrou que a vida em sociedade exige do indivíduo renúncias, adaptações e uma permanente negociação entre desejo e realidade.
A crise ambiental acrescenta uma questão contemporânea a esse conflito.
Durante décadas, fomos ensinados a acreditar que crescer significava consumir mais, produzir mais, possuir mais e explorar cada vez mais os recursos disponíveis. Agora começamos a perceber que esse modelo também produz consequências.
Então, surge uma contradição difícil de suportar: queremos conforto, segurança e desenvolvimento, mas descobrimos que algumas formas de satisfação podem contribuir para a destruição das próprias condições que sustentam nossa existência. É nesse conflito que a angústia aparece. O sujeito percebe que não controla completamente a realidade, mas continua tentando encontrar alguma forma de controle. E, diante de uma ameaça que parece gigantesca, essa tentativa pode assumir diferentes formas.
Entre a negação e a catástrofe.
Algumas pessoas preferem negar. Não querem ouvir falar sobre mudanças climáticas, evitam notícias e rejeitam qualquer informação que provoque desconforto.
Outras fazem exatamente o contrário. Passam horas acompanhando notícias, vídeos e imagens de desastres. Procuram constantemente novas informações e sentem que precisam saber tudo o que está acontecendo.
É aqui que podemos encontrar o chamado doomscrolling: a busca compulsiva por conteúdos negativos, principalmente nas redes sociais e nos portais de notícias. A pessoa acredita que está se informando para se proteger. Entretanto, muitas vezes acontece o inverso.
Quanto mais informação procura, mais ameaçada se sente. Quanto mais ameaçada se sente, mais informação procura.
Forma-se um ciclo. Ansiedade → busca de informação → exposição a novas ameaças → aumento da ansiedade → nova busca de informação.
E assim a pessoa permanece presa a uma espécie de vigília permanente. O celular passa a funcionar como uma janela aberta para a catástrofe.
O corpo também sente aquilo que a mente não consegue elaborar.
A ansiedade não permanece apenas nos pensamentos. Ela pode aparecer no corpo. Palpitações, tensão muscular, dores de cabeça, alterações gastrointestinais, irritabilidade, dificuldade de concentração, cansaço e problemas relacionados ao sono podem acompanhar períodos prolongados de estresse e ansiedade.
Depois de um desastre climático, esses sinais podem ser ainda mais intensos. É como se o organismo continuasse esperando que algo acontecesse novamente. O problema é que viver permanentemente em estado de alerta tem um custo. O indivíduo deixa de experimentar o presente porque está constantemente tentando antecipar o próximo perigo.
É, talvez, uma das maiores armadilhas da ecoansiedade seja justamente essa: o futuro começa a ocupar tanto espaço que o presente desaparece. Uma geração que tem dificuldade de imaginar o amanhã.
Entre os jovens, essa questão ganha uma dimensão ainda mais delicada. Como construir projetos de vida quando o futuro aparece constantemente associado à destruição? Como pensar em carreira, família, filhos, viagens, sonhos e realizações quando existe a sensação de que o mundo poderá se tornar cada vez mais instável?
Não devemos ignorar essas perguntas. Mas também precisamos ter cuidado para não transformar a preocupação ambiental em uma sentença de desesperança. Informar é necessário. Preparar-se é necessário. Mudar comportamentos é necessário. Cobrar responsabilidades de governos, empresas e instituições é necessário.
Entretanto, transformar o futuro em uma catástrofe inevitável pode produzir exatamente o efeito contrário daquele que desejamos. Pode produzir paralisia. E uma pessoa paralisada pelo medo tem menos condições de participar da transformação que deseja.
A prevenção começa quando recuperamos aquilo que está ao nosso alcance.
Como podemos estar agindo para evitar esse ciclo. Não podemos controlar o clima ou todas as decisões políticas. Bem como, não podemos controlar o comportamento de grandes empresas. Desta forma, também, não podemos garantir que nenhum desastre acontecerá.
Mas podemos controlar algumas coisas.
Podemos estabelecer limites para o consumo de notícias. Evitar o excesso de exposição às redes sociais. Podemos cuidar do sono, da alimentação, das relações afetivas e da atividade física.
Conversar. Participar de nossa comunidade e transformar a preocupação em alguma forma concreta de participação.
E, principalmente, podemos procurar ajuda quando percebemos que o medo está ultrapassando aquilo que conseguimos administrar sozinhos.
Buscar ajuda profissional não significa estar doente. Significa reconhecer que algumas experiências são grandes demais para serem elaboradas sem apoio.
Essa é uma ideia que considero fundamental também em outros temas relacionados à saúde mental: não precisamos esperar que o sofrimento se transforme em uma doença para começar a cuidar dele.
O que a psicanálise pode oferecer diante da ecoansiedade?
Talvez a pergunta não deva ser simplesmente “como acabar com a ecoansiedade?”.
Precisamos perguntar:
O que essa angústia está tentando nos dizer?
Ela pode estar falando sobre medo, sobre perda, ou sobre culpa. Talvez esteja falando sobre impotência ou sobre a necessidade de proteger aqueles que amamos. Quem sabe queira revelar uma dificuldade muito mais profunda como a de lidar com aquilo que não podemos controlar.
Na psicanálise, não buscamos simplesmente eliminar toda angústia.
A angústia também faz parte da experiência humana. O trabalho consiste em permitir que ela possa ser escutada, compreendida e elaborada, para que não precise encontrar outras formas de expressão através do corpo, dos comportamentos compulsivos ou da paralisia.
A pessoa precisa conseguir olhar para aquilo que a assusta sem ser completamente dominada pelo medo. E isso é muito diferente de dizer que “está tudo bem”. Não está tudo bem.
Existem problemas ambientais reais, perdas reais e riscos reais.
Mas reconhecer uma realidade difícil não significa necessariamente viver permanentemente submetido a ela.
Minha opinião: não podemos adoecer tentando salvar o mundo.
Na minha visão, a ecoansiedade representa uma das manifestações mais interessantes do sofrimento psíquico contemporâneo justamente porque ela coloca diante de nós uma questão que ultrapassa o indivíduo.
O sofrimento de uma pessoa pode estar relacionado a uma realidade concreta.
Por isso, considero perigoso transformar toda preocupação ambiental em transtorno. Se alguém vive em uma região atingida por enchentes e sente medo de que isso aconteça novamente, esse medo não deve ser imediatamente tratado como uma doença. Existe uma experiência real por trás daquela angústia.
Ao mesmo tempo, também considero perigoso ignorar quando esse medo começa a dominar a vida.
Tenho observado, tanto na minha prática quanto nos temas que venho estudando e escrevendo, que muitos sofrimentos contemporâneos aparecem justamente quando o indivíduo perde a capacidade de estabelecer limites. Isso acontece com a hiperconectividade, com o excesso de informação, com a necessidade permanente de reconhecimento e também com a ansiedade diante do futuro.
Em meu entendimento, o grande desafio não é fazer com que as pessoas deixem de se preocupar com o planeta. Precisamos, ao contrário, continuar preocupados. Cuidar do planeta. Cobrar mudanças e rever comportamentos. Precisamos pensar nas próximas gerações.
Mas necessitamos fazer isso sem transformar a preocupação em uma prisão psíquica.
Cuidar do planeta não pode significar abandonar o cuidado com quem está cuidando dele.
Existe uma diferença entre responsabilidade e culpa. Entre consciência e obsessão. Entre prevenção e medo permanente.
Mas, principalmente, uma diferença entre reconhecer que o futuro é incerto e acreditar que ele está necessariamente perdido. É nesse espaço que vejo a importância da psicanálise.
Não para oferecer respostas prontas sobre o futuro do planeta, mas para ajudar o sujeito a compreender o que acontece dentro dele quando percebe que não possui o controle sobre esse futuro.
Talvez não consigamos impedir todas as tempestades. Mas podemos aprender a não viver permanentemente dentro delas.
