PMEs serão as mais impactadas pela reforma tributária e seguem entre as menos preparadas


Mudança no sistema de impostos expõe fragilidades estruturais das pequenas e médias empresas

A reforma tributária em curso no Brasil deve alterar de forma significativa a apuração de impostos, a formação de preços e a organização financeira das empresas. Embora o debate se concentre nos grandes grupos, especialistas alertam que o impacto tende a ser maior sobre as pequenas e médias empresas, que ainda operam com baixo nível de preparo estrutural.

Jhonny Martins, contador e advogado, vice-presidente do SERAC, hub de soluções corporativas especializado em contabilidade, gestão tributária, jurídico e tecnologia, avalia que a reforma tributária tende a afetar de forma mais dura as pequenas e médias empresas. Dados do Sebrae mostram que microempresas, empresas de pequeno porte e MEIs representam entre 97% e 99% das empresas ativas no país, enquanto o IBGE aponta que concentram mais da metade dos empregos formais do setor privado. “A mudança expõe fragilidades estruturais que já estavam presentes na gestão das PMEs”, afirma.

Dados do Sebrae mostram que os pequenos negócios, categoria que inclui microempresas, empresas de pequeno porte e MEIs, representam cerca de 97% a 99% das empresas ativas no país, a depender do critério adotado. Levantamentos do IBGE indicam que essas empresas concentram mais da metade dos empregos formais do setor privado, além de terem papel relevante na geração de novas vagas nos últimos anos.

Apesar desse peso econômico, a estrutura de gestão das PMEs ainda é marcada por informalidade, controles limitados e decisões tributárias reativas, tomadas apenas no momento do recolhimento dos impostos. Esse cenário ajuda a explicar por que a reforma chega como um fator de pressão adicional para empresas que já lidam com margens reduzidas, crédito restrito e alta volatilidade de custos.

Para Jhonny, o problema central não está na reforma em si, mas no nível de preparação das empresas. “A reforma tributária não cria a fragilidade das PMEs, ela apenas escancara uma realidade que já existe. Muitas empresas não sabem exatamente quanto pagam de imposto por produto, serviço ou contrato, e isso se torna crítico em um novo modelo”, observa.

A avaliação ganha relevância porque a proposta de simplificação do sistema prevê a substituição de tributos cumulativos por um modelo de IVA dual, com CBS e IBS, exigindo controle mais rigoroso de créditos, revisão de processos fiscais e integração entre áreas que tradicionalmente operam de forma isolada. 

Para negócios que ainda dependem de planilhas manuais ou informações fragmentadas, o risco vai além de pagar mais imposto e envolve perda de previsibilidade financeira e competitividade.

Segundo ele, parte das empresas subestima o alcance da mudança. “Existe uma percepção equivocada de que quem está no Simples Nacional ou tem contratos de longo prazo estará protegido. A reforma afeta formação de preços, margens e renegociação contratual. Ignorar isso agora pode gerar problemas difíceis de corrigir depois”, diz.

Planejamento tributário deixa de ser diferencial e vira condição básica

Nesse novo ambiente fiscal, o planejamento tributário deixa de ser uma ferramenta pontual de economia e passa a ocupar um papel estrutural na estratégia do negócio. Não planejar, a partir de agora, equivale a assumir riscos diretos sobre o caixa e a continuidade da operação.

“O planejamento tributário não é mais um movimento oportunista para reduzir imposto. Ele passa a ser parte do desenho do negócio, da previsibilidade financeira e da sustentabilidade da empresa”, explica.

O desafio é que muitas PMEs ainda encaram a contabilidade como um serviço operacional, voltado apenas ao cumprimento de obrigações. Essa visão limita a capacidade de análise estratégica justamente em um momento em que a legislação exige leitura integrada de tributação, custos e modelo de negócio.

O especialista aponta cinco pontos de atenção para as PMEs diante da reforma

Antes de listar recomendações práticas, o especialista reforça que o objetivo não é alarmar o empresário, mas oferecer caminhos para reduzir riscos e ampliar a capacidade de adaptação.

  1. Avaliar o impacto real da reforma no negócio
    O primeiro passo é entender como a nova lógica tributária afeta produtos, serviços e contratos específicos. Sem essa análise, decisões de preço e negociação passam a ser feitas sem base técnica.
  2. Integrar áreas que hoje operam de forma isolada
    Tributação não é um tema exclusivo da contabilidade. As áreas comercial, financeira e jurídica precisam atuar de forma coordenada para evitar distorções de margem e conflitos contratuais.
  3. Revisar preços e margens com antecedência
    A mudança no modelo de impostos altera custos indiretos. Empresas que não recalcularem sua estrutura de preços correm o risco de manter faturamento e perder rentabilidade gradualmente.
  4. Avaliar com critério a contratação de assessoria especializada
    Nem todas as empresas têm estrutura interna para lidar com a complexidade da transição. Buscar parceiros com visão integrada, e não apenas operacional, reduz riscos e retrabalho.
  5. Tratar planejamento como processo contínuo
    A reforma não será um evento pontual. Ajustes e regulamentações ocorrerão ao longo dos próximos anos, exigindo revisões periódicas da estratégia tributária e financeira.

Para Martins, o maior erro das PMEs é tratar a reforma como um tema distante ou restrito às grandes corporações. “Quem se antecipa ganha tempo, previsibilidade e margem de manobra. Quem ignora, reage sob pressão, geralmente quando o impacto já chegou ao caixa”, afirma.

Ao final, o executivo destaca que a reforma também cria oportunidades para empresas mais organizadas. “Negócios que estruturarem seus processos tendem a ganhar eficiência e segurança. A mudança é inevitável. O risco está em entrar nela despreparado”, conclui.

Sobre Jhonny Martins

Jhonny Martins é contador e advogado pela PUC-SP com especialização em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito Damásio de Jesus, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV-SP e MBA em Gestão Tributária pela USP. É vice-presidente do SERAC, um hub de soluções corporativas. Instagram @jhonnymartins

Sobre o SERAC & BHub

O SERAC é referência nacional em contabilidade, educação e gestão corporativa e BHub, startup especializada em soluções tecnológicas de backoffice. Com mais de 10 mil clientes e presença em todo o território nacional, essa união visa transformar o setor contábil por meio de automação, formação e parcerias estratégicas.  Instagram: @sou_serac ou pelo site souserac.com.